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Dieta anti-inflamatória e câncer colorretal: evidências em quase 1 milhão nos Estados Unidos e Europa por 15 anos

Mesa com alimentos saudáveis e não saudáveis, notebook com gráfico e caderno ao fundo em ambiente de cozinha.

Estudos em nutrição há décadas esbarram no mesmo obstáculo: falta de consistência. Um padrão alimentar que parece ter ligação forte com a saúde em uma população muitas vezes enfraquece - ou some por completo - quando é avaliado em outra.

Isso acontece em cenários com alimentos básicos diferentes, tradições culinárias distintas e sistemas alimentares que não se parecem. Para enfrentar essa lacuna em uma escala inédita, um grupo de cientistas decidiu ampliar o tamanho do teste.

Eles reuniram quase 1 milhão de adultos dos Estados Unidos e da Europa, unificaram a forma de medir o que cada pessoa comia e acompanharam esses participantes por quase 15 anos.

Uma questão de padrão

O trabalho foi liderado pelo Dr. Fred K. Tabung, do Ohio State University Comprehensive Cancer Center (OSUCCC). A equipe dele usou dados de seis grandes coortes de pesquisa, distribuídas entre os Estados Unidos e a Europa.

Para colocar todas as dietas na mesma régua, os pesquisadores padronizaram mais de 800 itens alimentares relatados ao longo dos seis grupos. A partir daí, cada voluntário recebeu pontuações em três métricas alimentares diferentes.

Em seguida veio a parte essencial: observar o que aconteceria ao longo de quase 15 anos. Como o câncer colorretal tende a se desenvolver lentamente, apenas um acompanhamento suficientemente longo permitiria testar a hipótese com rigor.

Por dentro do escore

O principal instrumento foi o padrão dietético inflamatório empírico. Esse sistema estima como o conjunto dos hábitos alimentares de uma pessoa tende a empurrar o organismo na direção - ou na contramão - da inflamação crónica.

Além dele, um segundo escore acompanhou respostas relacionadas à insulina, e um terceiro sintetizou uma noção mais ampla de qualidade global da dieta. Cada um desses instrumentos atribuiu pesos diferentes aos alimentos.

No escore inflamatório, entram 18 grupos alimentares: nove associados ao aumento do “marcador” e nove ligados à redução.

Já a medida relacionada à insulina dá mais ênfase a alimentos que provocam picos de insulina, em contraste com aqueles que favorecem uma resposta mais estável.

As três pontuações avaliavam conceitos distintos do que seria uma alimentação saudável - e essa era a intenção. Se todas apontassem para a mesma direção, ficaria muito mais difícil atribuir o resultado ao acaso ou a particularidades de apenas uma população.

Respostas nos números

Após quase 15 anos de seguimento, mais de 16,500 voluntários desenvolveram câncer colorretal.

Quem tinha um padrão alimentar mais alinhado a uma dieta anti-inflamatória apresentou risco 16 percent menor do que aqueles cujo padrão ia com mais força para o lado oposto.

O padrão mais “amigo” da insulina esteve ligado a uma redução de risco de cerca de 18 percent. A qualidade geral da dieta, avaliada em sua própria escala, associou-se a uma queda de aproximadamente 20 percent.

Ou seja: três ferramentas, baseadas em três ideias diferentes sobre alimentação saudável, convergiram para níveis semelhantes de proteção.

O que mais chamou atenção foi a estabilidade do achado. Um estudo anterior, conduzido por alguns desses mesmos autores, já havia identificado o efeito ligado à inflamação entre profissionais de saúde nos Estados Unidos.

Até aqui, no entanto, ninguém tinha confirmado que o mesmo padrão se sustentava em populações tão diferentes entre si.

Alimentos de cada lado

No lado anti-inflamatório, o padrão dá mais espaço para café, chá, vegetais amarelo-escuros como cenoura e abóbora de inverno, folhas verdes, frutas inteiras, peixes gordos, leguminosas e frutos secos.

Do outro lado - o pró-inflamatório - aparecem carne vermelha, carne processada, grãos refinados e bebidas açucaradas.

O que não entra em nenhuma das duas listas é tão revelador quanto o que entra. Nenhum ingrediente isolado “vira” o marcador sozinho; e nenhuma fruta, erva ou suplemento carrega a proteção por conta própria.

O efeito parece ser construído ao longo de semanas e meses, e não por uma refeição específica ou por um único componente. Isso dá ao resultado um tom diferente das manchetes mais comuns sobre nutrição.

Na prática, o estudo contraria a ideia de que um elemento - como uma cápsula de óleo de peixe, um pó verde ou um latte de cúrcuma - seja capaz de oferecer, sozinho, a proteção observada. Quem carrega a proteção são os padrões alimentares.

Em dois continentes

A equipe também avaliou o quanto os resultados oscilavam de um grupo de estudo para outro. No escore relacionado à insulina, essa oscilação foi pequena, em torno de 22 percent.

Já os escores de inflamação e de qualidade global da dieta variaram mais, embora todos tenham caminhado na mesma direção. Parte dessa variação é explicada por diferenças na oferta e no tipo de alimentos.

O café em Itália não é o mesmo café dos subúrbios norte-americanos, e grãos integrais na Dinamarca não são iguais aos grãos integrais no Tennessee. Ainda assim, a proteção apareceu em todos os grupos.

Isso sugere que esses padrões não dependem de uma única tradição culinária. O padrão protetor parece acompanhar a mesma biologia subjacente em populações distintas.

O que pode estar por trás dos resultados

Tanto a inflamação crónica quanto níveis elevados de insulina são considerados possíveis motores na transição de células saudáveis para células cancerosas.

Este estudo não mediu diretamente esses mecanismos biológicos. Em vez disso, acompanhou padrões alimentares associados a risco em populações muito grandes.

Mesmo assim, os dados reforçam que a dieta pode influenciar os dois processos. Café e vegetais escuros contêm compostos associados a uma inflamação mais controlada.

Açúcares refinados favorecem picos acentuados de insulina, enquanto a fibra alimenta bactérias intestinais de formas que podem proteger o cólon. Por enquanto, os pesquisadores ainda não conseguem apontar qual mecanismo pesa mais.

Uma segunda revisão sugere que o microbioma intestinal participa da forma como a alimentação protege o cólon. O laboratório de Tabung está a aprofundar análises de química do sangue, dados de bactérias intestinais e microrganismos encontrados dentro de tumores.

A meta é entender o que muda quando alguém mantém esse padrão por anos: quais bactérias prosperam e quais sinais inflamatórios diminuem.

Pistas para o futuro

Antes desta análise, médicos ainda precisavam ponderar se o aconselhamento alimentar valia para além de um pequeno conjunto de coortes norte-americanas.

Agora, a resposta é afirmativa. O mesmo padrão protetor aparece dos dois lados do Atlântico. Tabung destacou que não é necessário reformular toda a alimentação de um dia para o outro.

Até ajustes modestos - como aumentar vegetais, frutas inteiras e leguminosas, ao mesmo tempo que se reduz carne processada e bebidas açucaradas - parecem trazer benefícios mensuráveis.

A equipa de Tabung já levou um padrão alimentar de baixa resposta de insulina para um pequeno ensaio clínico com mulheres em risco elevado de câncer da mama. A prevenção do câncer colorretal pode ser o próximo foco.

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