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Alimentação desordenada e transtorno alimentar: qual é a diferença?

Pessoa segurando celular e olhando a tela enquanto está à mesa com prato de salada, frutas, caderno aberto e suco.

Em uma cultura que valoriza saúde e aparência, é comum - e muitas vezes até incentivado - seguir dietas específicas ou treinar em excesso. Com a maior conscientização sobre alergias alimentares e outras necessidades nutricionais, também não surpreende ver pessoas reduzindo ou eliminando determinados alimentos.

Ainda assim, essas condutas podem indicar uma relação pouco saudável com a comida. É possível desenvolver um padrão alimentar problemático sem, necessariamente, receber um diagnóstico formal de transtorno alimentar.

Então, como separar uma coisa da outra? O que caracteriza alimentação desordenada e o que, de fato, configura um transtorno alimentar?

O que é alimentação desordenada?

O termo alimentação desordenada se refere a atitudes e comportamentos negativos em relação à comida e ao ato de comer, capazes de levar a um padrão alimentar desregulado.

Ela pode incluir:

  • fazer dieta
  • pular refeições
  • evitar certos grupos alimentares
  • episódios de compulsão alimentar
  • uso inadequado de laxantes e medicamentos para emagrecimento
  • provocar vômito (às vezes chamado de purgação)
  • praticar exercícios de forma compulsiva

Costuma-se usar “alimentação desordenada” quando essas condutas não ocorrem com frequência suficiente e/ou não têm gravidade suficiente para atender aos critérios de diagnóstico de um transtorno alimentar.

Nem todas as pessoas que apresentam esses comportamentos vão desenvolver um transtorno alimentar. Porém, a alimentação desordenada - especialmente a prática de dietas - geralmente vem antes do surgimento de um transtorno alimentar.

O que é um transtorno alimentar?

Os transtornos alimentares são condições psiquiátricas complexas que podem prejudicar o corpo, a saúde mental e a vida social. Eles se caracterizam por alterações persistentes na forma como a pessoa pensa, sente e se comporta em relação à alimentação e ao próprio corpo.

Para estabelecer um diagnóstico, um profissional de saúde qualificado costuma combinar questionários padronizados com perguntas mais gerais. Com isso, avalia-se a frequência e a intensidade dos comportamentos, além do impacto deles no funcionamento do dia a dia.

Entre os diagnósticos clínicos, estão anorexia nervosa, bulimia nervosa, transtorno de compulsão alimentar e transtorno de ingestão alimentar restritiva/evitativa.

Quão comuns são os transtornos alimentares e a alimentação desordenada?

Os números podem variar bastante, dependendo do estudo e de como cada pesquisa define comportamentos e atitudes desordenadas.

Estima-se que 8.4% das mulheres e 2.2% dos homens desenvolverão um transtorno alimentar em algum momento da vida. Isso é mais frequente na adolescência.

A alimentação desordenada também é especialmente comum entre jovens: 30% das meninas e 17% dos meninos de 6 a 18 anos relatam adotar esse tipo de comportamento.

Embora as pesquisas sobre o tema ainda estejam se consolidando, os dados indicam que alimentação desordenada e transtornos alimentares podem ser ainda mais frequentes em pessoas com diversidade de gênero.

É possível prevenir transtornos alimentares?

Há evidências de que programas de prevenção de transtornos alimentares, quando focados em fatores de risco - como fazer dieta e preocupações com forma corporal e peso -, podem ter alguma eficácia no curto prazo.

O problema é que a maioria desses estudos acompanha os participantes por apenas alguns meses. Assim, não dá para saber se, no longo prazo, essas pessoas acabaram desenvolvendo um transtorno alimentar.

Além disso, grande parte das pesquisas foi feita com meninas ou mulheres no fim do ensino médio e na universidade. Nessa fase, em muitos casos, os transtornos alimentares já começaram a aparecer. Por isso, esses estudos dizem menos sobre prevenção de fato e ainda deixam de fora a ampla diversidade de pessoas em risco.

A ortorexia é um transtorno alimentar?

Ao tentar traçar a fronteira entre transtornos alimentares e alimentação desordenada, a ortorexia nervosa é um ponto particularmente controverso.

O nome significa literalmente "apetite adequado" e descreve uma obsessão patológica por uma nutrição considerada correta, marcada por uma dieta restritiva e por evitar rigidamente alimentos vistos como "não saudáveis" ou "impuros".

Esses comportamentos de alimentação desordenada precisam ser levados a sério, porque podem resultar em desnutrição, perda de relacionamentos e piora geral da qualidade de vida.

Apesar disso, a ortorexia nervosa não é reconhecida como um transtorno alimentar oficial em nenhum manual diagnóstico.

Além do mais, com a popularidade de dietas específicas (como a cetogênica ou a paleo), da alimentação com restrição de horário e de exigências alimentares (por exemplo, uma dieta sem glúten), pode ser difícil perceber quando a preocupação com a alimentação se tornou desordenada - ou até quando já pode se tratar de um transtorno alimentar.

Por exemplo, cerca de 6% das pessoas têm alergia alimentar. Evidências recentes sugerem que elas também têm maior probabilidade de apresentar tipos restritivos de transtornos alimentares, como anorexia nervosa e transtorno de ingestão alimentar restritiva/evitativa.

Ainda assim, seguir uma dieta específica - como o veganismo - ou ter alergia alimentar não leva automaticamente à alimentação desordenada nem a um transtorno alimentar.

É fundamental reconhecer que as motivações para comer ou evitar certos alimentos variam. Uma pessoa vegana, por exemplo, pode restringir alguns grupos alimentares por preocupações com direitos dos animais, e não por sintomas de alimentação desordenada.

Sinais de alerta

Se você está preocupado com a sua relação com a comida - ou com a de alguém próximo -, estes são alguns sinais aos quais vale ficar atento:

  • preocupação excessiva com comida e com o preparo dos alimentos
  • excluir grupos alimentares ou pular refeições por completo
  • obsessão com peso ou forma corporal
  • grandes oscilações de peso
  • prática compulsiva de exercícios
  • mudanças de humor e isolamento social

Para pais e mães que suspeitam que o filho ou a filha possa estar desenvolvendo uma relação preocupante com comida, peso e imagem corporal, o Feed Your Instinct destaca sinais de alerta comuns, reúne informações úteis sobre como buscar ajuda e pode gerar um relatório personalizado para levar a um profissional de saúde.

Gemma Sharp, Pesquisadora em Imagem Corporal, Transtornos Alimentares e Transtornos do Peso, Monash University

Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.

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