A doença de Peyronie pode provocar ereções dolorosas, uma curvatura súbita do pénis e uma ansiedade profunda em relação ao sexo e aos relacionamentos.
Em muitos homens, os sinais surgem de forma rápida e trazem tensão - muitas vezes mantida em segredo por vergonha.
Há muito tempo, médicos encontram dificuldades para tratar o problema logo no início. Não é raro que o paciente ouça que o melhor é “esperar para ver” se a situação piora antes de pensar em injeções ou cirurgia.
Esse compasso de espera pode ser especialmente desgastante enquanto a doença ainda está em evolução. Um estudo recente, porém, indica que pode existir uma forma de abrandar o quadro antes que ocorram danos permanentes.
Os investigadores observaram que a combinação de dois medicamentos já bastante prescritos diminuiu a dor e melhorou a curvatura peniana em homens com doença de Peyronie em fase inicial.
Os dados reforçam uma estratégia terapêutica baseada em fármacos que os médicos já conhecem bem.
O que causa a curvatura
A doença de Peyronie aparece quando se forma tecido cicatricial fibroso no interior do pénis. Com o passar do tempo, esse tecido pode tracionar as áreas próximas e fazer com que o pénis se curve ou encurte durante as ereções.
Alguns homens também notam nódulos ou placas endurecidas sob a pele.
A condição atinge cerca de 10 por cento dos homens ao longo da vida. A frequência aumenta com a idade, embora também possa ocorrer em homens mais jovens.
Em muitos casos, além dos sintomas físicos, há um peso emocional considerável. Depressão, baixa autoestima e dificuldades no relacionamento são frequentemente relatadas.
Em geral, a doença evolui em duas etapas. A primeira é a fase aguda, em que dor e curvatura ainda estão a mudar. A segunda é a fase crónica, quando o quadro se estabiliza, mas a cicatriz costuma permanecer.
Os tratamentos disponíveis concentram-se, sobretudo, na fase mais tardia. Isso cria uma lacuna importante no cuidado de quem acabou de receber o diagnóstico.
Reaproveitamento de medicamentos já existentes
A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade Anglia Ruskin e por médicos do Hospital do Colégio Universitário de Londres (UCLH).
O grupo procurou avaliar se duas classes de fármacos bastante familiares poderiam beneficiar homens nas fases iniciais da doença de Peyronie.
O estudo reuniu 133 homens com doença de Peyronie aguda, que receberam durante três meses uma combinação de inibidores da PDE5 e moduladores seletivos do receptor de estrogênio (SERMs).
Entre os inibidores da PDE5 estão medicamentos como o sildenafil, mais conhecido como Viagra, e o tadalafil, comercializado como Cialis. Eles são amplamente usados no tratamento da disfunção erétil por aumentarem o fluxo sanguíneo.
O SERM adotado no estudo foi o tamoxifeno, um medicamento já prescrito para algumas condições relacionadas a hormônios, incluindo o cancro de mama.
Os investigadores compararam esses pacientes com um grupo menor submetido ao cuidado padrão, definido como vitamina E ou ausência de tratamento. A cirurgia não fez parte do protocolo.
Dor e curvatura melhoraram
De acordo com os resultados, 43 por cento dos pacientes que receberam a terapia combinada apresentaram melhora na curvatura do pénis. No grupo de cuidado padrão, apenas 15 por cento melhoraram.
A dor também caiu de forma marcante. No início do tratamento, 65 por cento dos participantes do grupo de combinação relatavam dor durante as ereções. Após três meses, esse número desceu para apenas 1,5 por cento.
Já no grupo de cuidado padrão, a prevalência de dor diminuiu de 50 por cento para 27 por cento.
Esses valores são relevantes porque a dor durante a ereção é um dos sintomas que, com frequência, leva o homem a procurar atendimento médico.
A ciência por trás do tratamento
O ensaio clínico foi resultado de anos de trabalho em laboratório liderados pelo professor Selim Cellek e pelo Grupo de Pesquisa em Fibrose da ARU.
Os cientistas analisaram 1.953 medicamentos aprovados pela FDA para encontrar substâncias capazes de impedir que fibroblastos se transformem em miofibroblastos - células que têm papel central na fibrose, o processo de cicatrização que sustenta a doença de Peyronie.
Os inibidores da PDE5 e os SERMs apareceram como os candidatos mais fortes. Em conjunto, os fármacos tiveram desempenho superior ao observado com cada tratamento isoladamente.
“Os resultados positivos deste estudo clínico piloto validam a nossa abordagem de triagem de fármacos no laboratório”, afirmou Selim Cellek.
“Isso mostra como o reaproveitamento de medicamentos bem conhecidos pode acelerar o progresso em áreas com necessidades clínicas não atendidas.”
Combater a fibrose antes que o dano aconteça
As conclusões podem ir além da doença de Peyronie.
A fibrose está envolvida numa ampla variedade de condições que afetam pulmões, fígado, coração e rins, e há anos pesquisadores procuram maneiras de interromper esse processo antes que surjam danos permanentes aos tecidos.
Como ambos os medicamentos já são tratamentos estabelecidos e com perfis de segurança conhecidos, os autores afirmam que a adoção pode ser mais simples caso estudos maiores confirmem os achados.
Na visão da equipa, uma intervenção precoce voltada à fibrose pode ajudar a alterar o curso da doença de Peyronie, e não apenas aliviar sintomas.
Mudar o momento do tratamento
Um dos motivos para os resultados chamarem atenção é que, atualmente, não existem tratamentos orais aprovados com eficácia comprovada para travar a progressão inicial da doença de Peyronie.
Muitos pacientes passam meses à espera de o quadro estabilizar para só então se tornarem elegíveis a opções mais agressivas.
Nesse intervalo, a curvatura pode piorar e a função sexual pode declinar. Ainda serão necessários estudos maiores antes que o método se torne prática padrão.
Mesmo assim, a proposta de tratar a doença de Peyronie antes do desenvolvimento de cicatrizes intensas pode representar uma mudança significativa para pacientes que hoje têm poucas alternativas nas fases mais precoces.
O estudo completo foi publicado na Revista de Medicina Sexual.
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