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COVID longa: por que algumas pessoas estão a testar nicotina em goma e adesivos

Pessoa sentada à mesa segurando medicamento com copo d'água, oxímetro e livro aberto em ambiente iluminado.

Algumas pessoas com COVID longa passaram a recorrer a uma alternativa pouco provável: goma de nicotina e adesivos de nicotina.

Embora a nicotina seja mais conhecida pelo uso na cessação do tabagismo, investigadores têm vindo a considerar se ela poderia ajudar a atenuar sintomas como névoa cerebral e fadiga.

Um caso descrito numa reportagem recente da Slate relata a história de uma mulher que notou alívio importante de uma névoa cerebral incapacitante após experimentar goma de nicotina em dose baixa. Apesar de ser um relato anedótico, a experiência é compatível com resultados de um estudo pequeno, mas intrigante, realizado na Alemanha.

Nesse estudo, quatro participantes com sintomas associados à COVID longa receberam, uma vez por dia, adesivos de nicotina em dose baixa. O investigador observou melhorias claras nos sintomas: cansaço, fraqueza, falta de ar e dificuldade para fazer exercício melhoraram rapidamente - no máximo até ao sexto dia.

Já entre os participantes que tinham perdido o paladar ou o olfato, a recuperação demorou mais. Ainda assim, esses sentidos regressaram por completo em até 16 dias. Embora um estudo tão pequeno não permita estabelecer conclusões definitivas sobre causa e efeito, os achados podem abrir caminho para pesquisas maiores.

Enquanto algumas pessoas recuperam gradualmente da COVID-19, outras permanecem com sintomas durante anos - sobretudo quem adoeceu antes de existirem vacinas disponíveis. Entre 3% e 5% das pessoas continuam a ter sintomas por meses e, por vezes, até por anos após a infeção inicial. No Reino Unido, a COVID longa afeta cerca de 2,8% da população.

A névoa cerebral e outros sintomas neurológicos da COVID longa são atribuídos a uma combinação de fatores, como inflamação, redução do oxigénio que chega ao cérebro, danos vasculares e alterações na barreira hematoencefálica. A investigação segue em curso, porque ainda há muito por esclarecer sobre essa condição.

Por que a nicotina está a ser considerada na COVID longa

O investigador do estudo alemão propõe que sintomas da COVID longa - incluindo fadiga, névoa cerebral e mudanças de humor - possam estar ligados, em parte, a alterações envolvendo a acetilcolina, um neurotransmissor. Essa substância é essencial para várias funções do organismo, como memória, atenção e regulação do humor.

Em condições normais, a acetilcolina atua ao ligar-se a recetores específicos nas células, conhecidos como recetores nicotínicos de acetilcolina. Esses recetores funcionam como "pontos de ancoragem" e contribuem para a transmissão de sinais no cérebro e no sistema nervoso.

O vírus da COVID pode interferir nesses recetores, seja ao bloqueá-los, seja ao perturbar o modo como funcionam. Quando isso ocorre, a comunicação por sinais no cérebro pode ficar comprometida, o que potencialmente ajuda a explicar os sintomas mentais e físicos observados na COVID longa.

A partir daí surge a pergunta: por que a nicotina poderia ajudar? A nicotina liga-se aos mesmos recetores e talvez contribua para normalizar a sinalização. No entanto, a ideia de que ela desalojaria diretamente o vírus desses recetores continua a ser especulativa.

Formas de nicotina e o que se sabe até agora

A nicotina pode ser encontrada em diferentes apresentações, como adesivos, goma, pastilhas e sprays. Quando usada pela pele - por exemplo, com um adesivo - a quantidade no sangue tende a manter-se mais estável, sem grandes picos. Por isso, no estudo, não pareceu haver desenvolvimento de dependência.

Já ao mascar goma de nicotina ou usar uma pastilha, pode haver picos nos níveis de nicotina, pois a absorção ocorre gradualmente pela mucosa da boca. Por outro lado, ao contrário do adesivo (que fornece uma dose contínua), goma e pastilhas permitem ao utilizador ajustar melhor a quantidade ingerida.

Quanto ao impacto da nicotina sobre funções cognitivas, como memória e concentração, os resultados na literatura são mistos. Mesmo assim, a maioria dos estudos concorda que ela pode melhorar a atenção. Para avaliar a utilidade da nicotina especificamente nos sintomas da COVID longa, ainda são necessários estudos maiores.

Não é isento de riscos

Apesar de possíveis benefícios, a nicotina envolve riscos. Mesmo em forma de goma ou adesivo, pode causar efeitos adversos como náuseas, tontura, aumento da frequência cardíaca e elevação da pressão arterial.

Alguns desses efeitos estimulantes sobre a frequência cardíaca podem ser úteis para pessoas com COVID longa que apresentam intolerância ao exercício. Ainda assim, isso exige monitorização cuidadosa. O uso prolongado também pode afetar a saúde do coração. Para não fumadores, a possibilidade de desenvolver dependência de nicotina é uma preocupação séria.

Existem alternativas para tratar sintomas da COVID longa?

Então, há opções para tratar sintomas da COVID longa?

Há estudos a investigar a guanfacina em combinação com N-acetilcisteína, com relatos de melhoria da névoa cerebral em grupos pequenos de pessoas.

Pelo menos um ensaio clínico já avaliou a nicotina para comprometimento cognitivo leve em idosos, embora não no contexto da COVID longa. Considerando que relatos anedóticos e estudos pequenos continuam a chamar a atenção, é provável que ensaios direcionados estejam a ser desenvolvidos.

As principais recomendações de especialistas concentram-se em medidas de estilo de vida. Aumentar o exercício de forma lenta e progressiva, manter uma alimentação saudável, evitar álcool, drogas e tabaco, dormir o suficiente, praticar mindfulness e realizar atividades que estimulem o cérebro são estratégias consideradas úteis para a névoa cerebral.

Para quem enfrenta COVID longa ou névoa cerebral persistente, pode ser tentador experimentar adesivos ou goma de nicotina. Ainda assim, especialistas alertam contra a automedicação com nicotina. A ausência de uma dose padronizada e o risco de dependência, além de efeitos a longo prazo ainda desconhecidos, tornam essa tentativa um experimento arriscado.

Embora a nicotina não seja uma cura e possa trazer riscos reais, o seu potencial para aliviar sintomas da COVID longa justifica estudo cuidadoso. Por enquanto, quem lida com névoa cerebral deve proceder com cautela - e sempre com supervisão médica.

O que permanece evidente é a necessidade urgente de mais investigação sobre tratamentos seguros e eficazes para os efeitos persistentes da COVID.

Dipa Kamdar, Professora Sénior em Prática Farmacêutica, Kingston University

Este artigo foi republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.

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