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Resistência a antibióticos no plástico da Antártida

Pesquisador vestido com roupas de frio realiza experimentos científicos em praia rochosa com icebergs ao fundo.

Quando cientistas procuram um ponto de referência “limpo” para resistência a antibióticos, a Antártida costuma ser a escolha padrão. Sem agropecuária intensiva nem clínicas superlotadas. Sem farmácias a centenas de quilómetros da maioria dos locais de trabalho de campo. A ideia dominante sempre foi simples: longe de tudo significa limpo.

Só que o que vem aparecendo em litorais remotos, cheios de lixo plástico, está a tornar essa suposição bem mais difícil de sustentar. Não por causa do tipo de plástico em si. Mas por causa do que está a viver sobre ele.

Fragmentos em Fildes

Uma equipa liderada por investigadores da Universidade Autónoma de Madrid (UAM) percorreu as margens de dois lagos e de uma ilha protegida na Península de Fildes, perto da Ilha Rei George, com sacos de amostragem estéreis nas mãos.

Os três pontos analisados foram o Lago Uruguay, o Lago Ionosférico e a Ilha Ardley, uma Área Antárctica Especialmente Protegida.

O plástico encontrado não tinha nada de extraordinário: poliestireno expandido e espuma de poliuretano - materiais iguais aos usados para embalar encomendas no dia a dia.

Um ecossistema no plástico

No solo e na água, o plástico rapidamente ganha uma película fina de bactérias. Esse filme de organismos vivos - denso, activo e diferente do ambiente ao redor - é conhecido como plastisfera.

Dentro da plastisfera, as bactérias conseguem trocar genes com mais facilidade do que aquelas dispersas no solo ou na água. A superfície ajuda a fixar, aproximar e manter microrganismos lado a lado, o que favorece a troca de ADN até entre espécies diferentes.

Já se sabia que plastisferas marinhas podiam acumular características de resistência a antibióticos - o primeiro grande trabalho sobre isso veio do oceano aberto. O que ainda não tinha sido verificado era o que acontecia no “fundo do mundo”.

Genes de resistência agrupam-se em detritos

Juan Manuel Valenzuela-Lázaro, investigador da UAM e autor principal do estudo, aplicou um teste capaz de rastrear centenas de genes de resistência de uma só vez. A equipa executou a análise no biofilme do plástico, no solo adjacente e na água dos lagos.

Somando todas as amostras, foram identificados 294 genes diferentes de resistência a antibióticos e 52 segmentos de ADN que ajudam esses genes a saltar entre bactérias. Desse conjunto, 83 - cerca de 28% - apareceram exclusivamente no plástico.

Já o solo e a água ao redor produziram apenas dois genes únicos. Ou seja: quase toda a resistência a antibióticos detectada pela equipa estava concentrada no plástico, enquanto o ambiente próximo praticamente não apresentava uma “assinatura” própria.

Resistência de alto risco aparece

Os investigadores também classificaram os 294 genes de acordo com o risco que representam para a medicina humana.

Dezasseis entraram na categoria mais preocupante - aquela associada a surtos hospitalares e a infecções difíceis de tratar.

Cinco desses genes foram encontrados apenas em plástico recolhido na Ilha Ardley. Dois nunca tinham sido registados em nenhuma parte da Antártida antes deste estudo. Agora, foram.

Elementos genéticos móveis

O contraste mais marcante surgiu ao analisar os próprios elementos genéticos móveis - trechos de ADN que permitem que características de resistência sejam transferidas entre bactérias não relacionadas.

No plástico, esses trechos apareciam associados a genes de resistência a antibióticos 20 vezes mais do que no solo ou na água próximos - um padrão que isolava o plástico como um caso à parte em relação ao que o rodeava.

Um gene usado por bactérias para capturar e transportar características de resistência a antibióticos - mais comum em estirpes hospitalares - foi detectado 16 vezes mais no plástico do que fora dele.

Assim, o plástico não parecia apenas “armazenar” resistência a antibióticos. Ele também parecia concentrar as ferramentas moleculares necessárias para que esses genes passem de uma bactéria para outra.

Bactérias vivas foram encontradas

Para afastar a hipótese de que tudo fosse apenas restos genéticos antigos e já inactivos, a equipa manteve o plástico congelado durante meses e, depois, tentou cultivar bactérias a partir dessas amostras em placas com antibióticos.

Sete estirpes distintas voltaram a crescer - a maioria formada por espécies de Pseudomonas nativas da região, além de um Pedobacter adaptado ao frio.

Todas as estirpes recuperadas resistiram a pelo menos um antibiótico em níveis que seriam relevantes do ponto de vista clínico.

E cada uma delas também apresentava o maquinário genético que permite que a resistência seja transferida para outras bactérias. Eram organismos vivos - não apenas vestígios congelados de algo que já tinha estado ali.

Genes persistem no isolamento

A equipa procurou, no solo e na água, resíduos de cinco famílias comuns de antibióticos. Nenhum foi detectado acima dos limites do método. Então, o que estaria a manter esses genes vivos no plástico, se aparentemente não há pressão selectiva por antibióticos?

Um estudo de 2018 com solos antárcticos considerados pristinos associou a resistência ali a genes antigos, evoluídos naturalmente, que antecedem os antibióticos usados por humanos.

Outros trabalhos relacionaram o fenómeno à presença de metais pesados no guano de pinguins. O plástico, por sua vez, parece funcionar como um colector e concentrador do que já existe no ambiente.

O que isto muda

Até aqui, a narrativa sobre micróbios antárcticos tendia a dividir-se em dois cenários: ou resistência antiga, de evolução natural, ou sinais discretos ligados a estações de pesquisa. A resistência associada ao plástico descrita aqui é uma terceira situação.

Os detritos plásticos não apenas acumulam características de resistência. Eles também parecem juntá-las às ferramentas moleculares capazes de espalhá-las entre espécies - e ainda manter os seus portadores vivos ao longo dos invernos antárcticos.

Uma revisão recente já tinha alertado que o continente não podia ser tratado como necessariamente livre de resistência antimicrobiana.

Este trabalho indica onde estão os pontos quentes concretos. Para quem acompanha como a resistência circula globalmente, isso acrescenta um novo nó ao mapa - um nó que pode devolver bactérias e genes ao mundo mais amplo por meio de aves migratórias, correntes oceânicas ou do tráfego de expedições.

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