Pular para o conteúdo

Estudo mostra que a toxoplasmose por Toxoplasma gondii altera a comunicação entre neurônios por vesículas extracelulares

Cientista em laboratório segurando prato de petri com imagem digital de cérebro, laptop e microscópio à frente.

Uma infecção por um parasita bastante comum pode bagunçar de forma significativa o funcionamento do cérebro de hospedeiros intermediários - possivelmente incluindo seres humanos - segundo resultados de uma pesquisa recente.

Mesmo quando a quantidade de neurônios atingidos é relativamente pequena, a toxoplasmose - infecção causada pelo parasita Toxoplasma gondii - prejudica com força a comunicação entre células nervosas. Essa conclusão veio de um estudo com neurônios de camundongos: parte das células foi cultivada em laboratório e parte foi obtida de animais vivos.

O que o estudo encontrou nas vesículas extracelulares (EVs)

Os neurônios contaminados pelo parasita liberaram menos vesículas extracelulares (EVs), minúsculos pacotes envoltos por lipídios que carregam proteínas, ácidos nucleicos e metabólitos, usados como um canal de comunicação entre células. O achado pesa bastante no debate sobre o possível impacto da toxoplasmose no comportamento.

"Descobrimos que essa interrupção na sinalização por EVs pode atrapalhar a forma como neurônios e células gliais, especialmente os astrócitos, mantêm um ambiente cerebral saudável", afirma a imunologista de parasitas Emma Wilson, da Faculdade de Medicina da Universidade da Califórnia em Riverside.

"Mesmo um pequeno número de neurônios infectados pode deslocar o equilíbrio neuroquímico do cérebro. Isso sugere que a comunicação entre neurônios e células gliais de suporte não é apenas essencial, como também vulnerável a ser sequestrada por parasitas."

Por que o Toxoplasma gondii consegue interferir no cérebro

O T. gondii é conhecido por provocar mudanças comportamentais - para melhor ou para pior - nos organismos que infecta. O parasita tende a localizar uma célula e se instalar dentro dela; e, entre os tipos celulares que mais prefere, estão os neurônios. Para alcançar esse alvo, ele atravessa a barreira hematoencefálica. Uma vez no interior da célula, o protozoário pode permanecer ali por décadas, praticamente em modo de espera.

Trata-se de um dos parasitas mais bem-sucedidos do planeta, com capacidade de invadir poucas espécies de sangue quente fora do seu alcance. Ainda assim, ele só consegue se reproduzir em gatos; e há pesquisas sugerindo que parte das alterações comportamentais observadas em organismos infectados serviria para aumentar a chance de contato com felinos - por exemplo, roedores que, de repente, passam a procurar o cheiro de urina de gato em vez de evitá-lo.

Alguns trabalhos apontam que as evidências dessa “manipulação” comportamental são circunstanciais e que não dá para vincular essas mudanças ao parasita de maneira conclusiva. Em humanos, a questão fica ainda mais difícil: comportamento é um fenômeno complexo e é complicado atribuir alterações a um único fator.

Evidências físicas: neurônios, astrócitos e glutamato

A nova pesquisa não avaliou comportamento; ela se baseou inteiramente em evidências físicas. Os cientistas infectaram neurônios de camundongos com T. gondii e examinaram com cuidado tanto a produção quanto o conteúdo das EVs, comparando os resultados com as EVs de neurônios saudáveis, sem infecção.

Eles observaram não só uma queda na produção de EVs, como também mudanças no que esses pacotes carregavam em relação aos gerados por neurônios não infectados. Como as EVs têm a função de transmitir informações entre neurônios e astrócitos, isso desencadeou um efeito em cascata: a expressão gênica dos astrócitos também se alterou, levando ao aumento da produção de assinaturas imunológicas específicas e à redução de um transportador que ajuda a retirar o excesso de glutamato do cérebro.

O excesso de glutamato está associado a problemas como convulsões e danos neurais - complicações reconhecidas em quadros graves de toxoplasmose. Esse conjunto de resultados sugere que talvez estejamos subestimando o impacto do T. gondii.

"O parasita pode ter um papel maior em condições neurológicas e comportamentais do que imaginávamos", diz Wilson.

Frequência em humanos e formas de prevenção da toxoplasmose

Um número surpreendentemente alto de pessoas abriga T. gondii. Em geral, a infecção ocorre ao ingerir alimentos mal preparados, como carne malpassada, ou ao ter contato com fezes de gatos. Em algumas regiões do mundo, as taxas de prevalência chegam a 80%; nos Estados Unidos, estima-se que 10 a 30% da população esteja infectada.

A maioria das pessoas nunca percebe a presença desses “passageiros” no sistema nervoso e segue a vida sem efeitos aparentes. Porém, para algumas - especialmente bebês, idosos, pessoas imunocomprometidas e gestantes - a infecção pode se tornar perigosa.

Entre as medidas de prevenção mais eficazes estão cozinhar bem as carnes, lavar verduras e legumes e higienizar as mãos com cuidado após manusear a areia da caixa de gatos. Ao mesmo tempo, estudos como o de Wilson podem contribuir para entender melhor o parasita e desenvolver maneiras de proteção.

"Nossos cérebros têm defesas internas que podem reconhecer e responder a neurônios infectados por T. gondii", afirma ela. "Se conseguirmos aprender como apoiar ou reforçar esse processo, talvez seja possível proteger melhor as pessoas, principalmente as mais vulneráveis."

A pesquisa foi publicada na PLOS Pathogens.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário