Metáforas cruéis: quando a deficiência vira insulto
Convivo com pessoas com deficiência - e mais ainda quando são minhas amigas - e, há tempos, me dou conta de como a história humana e, por consequência, a própria linguagem, estão cheias de metáforas ao mesmo tempo curiosas e duras, muitas vezes injustas. Por comparação indireta, a deficiência acaba servindo como figura para o que é ruim, risível ou desprezível.
No dia a dia, não faltam exemplos desse hábito: “Mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo”, “a tua explicação está cheia de partes gagas”, “és surdo só para o que te dá jeito”. E, quando o assunto chega à cegueira - aí, por outra categoria de metáfora - os casos são tantos que parecem mato.
Cegueira como metáfora (e a palavra "invisual")
Nas conversas comuns e em boa parte da literatura, a cegueira é transformada continuamente em símbolo de outra coisa. Para começar, muitíssima gente evita dizer “cegueira” e “cego”, que são as formas corretas, e entra numa espécie de caridade linguística ao chamar de "invisual" alguém que não enxerga.
Como me explicou meu colega de infância e amigo Vítor, advogado cego, isso pode soar como “alguém que ninguém consegue ver”. E daí se chega a situações quase paranormais: um transeunte agarra um cego com força pelo braço na calçada e sai gritando, abrindo passagem: "Deixem passar o homem, que é invisível!"
Além disso, a cegueira vira metáfora para quase todo tipo de tristeza e maldade humana: fala-se em cegueira política, cegueira econômica e, claro, as cegueiras do amor.
Foi por esse motivo que, certa vez, escrevi num livro um provérbio inventado - pode parecer bobo, uma verdade óbvia, mas em que pessoas cegas se reconhecem, justamente por carregar uma verdade simples: "Cegos são pessoas que não veem, na minha opinião." Ou seja: são pessoas como quaisquer outras, com virtudes e defeitos; apenas os olhos é que não funcionam.
Na prática, qualquer pessoa cega usa expressões como “vi isto”, “vi aquele espetáculo”, “vi aquele filme” e “estás a ver?”, do mesmo modo que todo mundo.
Quando as coisas se juntam: um caso no tribunal
Há poucos dias, acabei eu mesmo numa situação estranha, dessas em que os assuntos se encaixam uns nos outros.
No banco dos réus estava Alberto. Aos 21 anos, quando trabalhava fabricando enxadas e outros instrumentos agrícolas, ele ficou cego num acidente com solda. Por muitos anos se dedicou ao atletismo, mas, já com quarenta e poucos, precisou parar de correr e, infelizmente, passou a beber.
A partir daí, Alberto virou a própria vida de cabeça para baixo e fez da convivência com Isabel - cega havia 10 anos - um inferno de xingamentos, medo e angústia.
A acusação, a ameaça e a rotina de medo
De acordo com a acusação, lida pela juíza, duas vezes por semana Alberto chegava em casa vindo do café e, por motivos frívolos, gritava com a mulher: sua puta, és uma mulher que não prestas. Há dois anos, no auge da raiva, deixou o aviso:
- Se terminares comigo, vou-te matar, vou-te fazer a folha!
Isso causou grande abalo nela, "receosa do que viesse a acontecer". Hoje, ela passa mais da metade das semanas em outra cidade, acompanhando a filha do casal, que entrou na universidade, mas ainda fica na mesma casa de Alberto quando vem a Lisboa. Ele, desde que passou a responder à acusação, se aquietou.
Eu discutia com ela por ela estar sempre ao telemóvel e ao computador, só isso. Ela diz que lhe chamei uma vez puta, mas eu não me lembro de nada. Eu nem minto, nem digo que é verdade. Ela é que diz que sim!
Nunca disse que lhe fazia a folha, se o deixasse?
Por acaso, isso nunca disse, só disse que estava sempre a falar ao computador, a falar com as amizades que ela tem.
Não era por ciúmes? Não a acusou de falar com homens?
Sim, falava com homens que eu não conhecia.
E pronto: aí está mais um processo de ciúme e alcoolismo - ou de álcool e ciumeira - como tantos que passam pelo tribunal, violências aos milhares que, desta vez, não chegaram à agressão física, ficando apenas na velha infelicidade doméstica cotidiana portuguesa.
"Cegos são pessoas que não veem, na minha opinião."
*O autor escreve seguindo a ortografia antiga
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