Um boletim perde nota, uma mensagem soa estranha, uma foto parece fora do lugar e, de repente, o dia inteiro dá a sensação de ter sido estragado. Para muitos jovens, a vida passou a parecer uma prova que, na prática, nunca termina.
Há sempre outra nota para alcançar, mais uma comparação para aguentar, outra versão de si mesmo para “corrigir”.
Com frequência, a culpa recai sobre os telemóveis. As redes sociais recebem ainda mais acusações. No entanto, um estudo de grande porte publicado no Boletim Psicológico indica que essa pressão já vinha aumentando antes de os celulares se tornarem o centro da rotina.
O perfeccionismo está a aumentar
O estudo acompanhou níveis de perfeccionismo entre estudantes universitários dos Estados Unidos, do Canadá e do Reino Unido ao longo de 35 anos.
A conclusão é direta, mas preocupante: os estudantes estão a tornar-se mais perfeccionistas - e o medo de falhar cresce a um ritmo ainda maior.
“Perfeccionismo é um risco de saúde pública – está associado ao aumento de depressão e ansiedade”, afirmou o autor principal, o Dr. Thomas Curran, da Escola de Economia e Ciência Política de Londres.
“Se quisermos enfrentar a crise de saúde mental entre jovens, precisamos olhar para esses fatores culturais e económicos.”
Estudo de longo prazo deixa a tendência clara
A equipa de investigação analisou dados de 1989 a 2024. Isso reuniu 307 amostras provenientes de 297 estudos, totalizando mais de 82.000 estudantes universitários.
Não se tratou de um questionário limitado a uma única instituição. Foi um retrato amplo de como a psicologia dos estudantes se transformou ao longo do tempo.
Para isso, os autores aplicaram escalas consolidadas em psicologia que avaliam diferentes dimensões do perfeccionismo.
Essas medidas vão além de perguntar se alguém gosta de um trabalho bem-feito. Elas investigam o que ocorre quando a pessoa fica aquém do que esperava.
O perfeccionismo tem diferentes formas
Perfeccionismo não é apenas manter padrões elevados. Em alguns casos, ele se aproxima da ambição; em outros, é o medo com aparência de virtude.
Uma modalidade nasce “por dentro”: o estudante se cobra impecabilidade porque qualquer coisa abaixo disso parece inaceitável.
Outra modalidade vem “de fora”: o estudante acredita que pais, professores, empregadores, amigos ou a própria sociedade exigem que ele seja perfeito.
Os investigadores costumam organizar essas dimensões em dois padrões amplos. Os chamados esforços perfeccionistas dizem respeito a metas altas e busca de realização.
Já as preocupações perfeccionistas envolvem medo, vergonha, dúvidas e angústia diante dos erros. As duas dimensões estão a crescer, mas não do mesmo modo.
A ambição continua a subir
Comparados a décadas anteriores, estudantes de hoje relatam padrões pessoais mais elevados. Eles querem notas fortes, currículos fortes, carreiras fortes e um futuro sólido.
À primeira vista, isso pode soar positivo. Esforço conta, e objetivos ajudam a orientar a vida.
Ainda assim, a ambição muda de natureza quando o medo assume o comando. O trabalho deixa de ter significado.
A meta vira um sinal de alerta. O estudante passa a estudar não apenas para aprender, mas também para não sentir que fracassou.
É aí que o preço emocional começa a aparecer.
O medo cresce mais depressa
O aumento mais acentuado veio das preocupações perfeccionistas. Essas preocupações mantiveram-se relativamente estáveis durante os anos 1990, mas passaram a subir mais rapidamente por volta de 2000.
Em 2024, os estudantes reportaram muito mais medo de errar. Também mostraram mais insegurança sobre as próprias decisões e mais preocupação com a opinião alheia.
Ou seja, não é apenas que os jovens estão a trabalhar mais. Muitos estão a fazer isso sob um nível maior de medo.
E esse medo pode transformar um fracasso comum em algo muito mais pesado.
Erros passam a pesar mais
Dentro do estudo, o maior crescimento esteve ligado à preocupação com erros. Na prática, isso significa que falhas são sentidas como algo íntimo e definidor, mesmo quando são normais.
Uma nota baixa deixa de ser apenas uma nota baixa. Um comentário sem jeito vira mais do que um comentário sem jeito. Uma candidatura recusada passa a representar mais do que uma oportunidade perdida.
Para alguns estudantes, o pensamento torna-se doloroso e direto: eu falhei, então eu sou um fracasso.
Esse padrão pode encolher o mundo da pessoa. Ela pode evitar disciplinas desafiadoras, conversas difíceis, novos passatempos ou perguntas honestas, simplesmente porque tentar traz o risco de parecer imperfeita.
A dúvida torna-se exaustiva
O estudo também identificou crescimento nas dúvidas sobre as próprias ações. É a sensação de que nada está realmente pronto.
O e-mail precisa de mais uma revisão. O trabalho pede mais uma edição. A decisão exige mais uma noite. O plano precisa de mais uma opinião.
Por fora, isso pode parecer capricho e cuidado. Por dentro, pode soar como uma mente que não consegue soltar.
Não é falta de disposição para se esforçar. É medo de que, mesmo com esforço, ainda não seja suficiente.
A desigualdade acrescenta medo
Os autores também foram além dos hábitos individuais e olharam para pressões económicas mais amplas, incluindo a desigualdade de renda.
Eles observaram que maior desigualdade estava associada a preocupações perfeccionistas mais elevadas. Em termos simples: quando a sociedade parece mais desigual, errar pode parecer mais perigoso.
A explicação é fácil de acompanhar. Se o sucesso parece estreito e o custo do fracasso parece alto, cada tropeço ganha proporções maiores.
Jovens podem temer ficar para trás, perder status ou dececionar quem depende deles.
Assim, o perfeccionismo não é apenas uma luta privada. Ele também pode ser uma resposta ao mundo que os jovens recebem como herança.
A escassez aumenta a pressão
O estudo também apontou que condições económicas mais fracas se relacionavam a esforços perfeccionistas mais intensos. Quando as oportunidades parecem limitadas, a competição fica mais dura.
Estudantes podem começar a acreditar que precisam de notas perfeitas, estágios perfeitos, escolhas perfeitas e timing perfeito apenas para permanecer na disputa.
“Quando há falta de oportunidade económica, jovens parecem compensar com esforço”, disse o Dr. Curran.
“E quando a desigualdade aumenta, o que se vê é que o medo e a preocupação com cometer erros e com a opinião de outras pessoas começa a tornar-se uma característica mais central da psicologia dos jovens.”
Forma-se, então, um ciclo doloroso: o futuro parece incerto, e os estudantes se cobram mais. Como a cobrança aumenta, cada erro parece ainda mais ameaçador.
As redes sociais amplificam a pressão
As redes sociais continuam relevantes porque dão à comparação um lugar permanente. Sempre há alguém que parece mais feliz, mais em forma, mais rico, mais calmo ou mais adiantado.
Mas o estudo indica que as redes sociais não criaram a tendência sozinhas. A escalada do perfeccionismo movido a medo começou por volta de 2000, antes de celulares e plataformas atuais se tornarem comuns.
“Telemóveis e redes sociais levaram muita culpa, mas o aumento do perfeccionismo é anterior às redes sociais”, observou o Dr. Curran. “Este estudo de investigação sugere que algo mais profundo está em ação.”
A pressão já vinha crescendo. As redes sociais podem ter tornado isso mais alto, mais rápido e mais difícil de evitar.
A saúde mental sente o impacto
Há muito tempo, o perfeccionismo é associado a depressão, ansiedade, transtornos alimentares e pensamentos suicidas. Os investigadores questionaram se o perfeccionismo teria ficado menos prejudicial agora que se tornou mais comum.
A resposta foi negativa. Os riscos para a saúde mental permaneceram estáveis ao longo de todo o período analisado.
Isso é importante porque o aumento do perfeccionismo não se torna seguro só porque mais pessoas o vivem. Se mais estudantes carregam essa pressão, mais estudantes podem carregar também os seus custos.
A mudança precisa ser mais profunda
A terapia pode ajudar, assim como um suporte melhor em escolas e universidades. Pais e responsáveis também podem contribuir ao tratar erros como parte do aprendizado - e não como prova de fraqueza.
Ainda assim, o estudo aponta para um problema maior. Uma cultura sustentada por competição constante continuará a produzir medo. Uma economia que faz o fracasso parecer severo continuará a empurrar jovens para padrões impossíveis.
Os jovens não precisam de sonhos menores. Precisam de mais espaço para serem humanos enquanto os perseguem.
Precisam saber que crescer inclui errar, que se esforçar não exige autopunição e que ser imperfeito não os torna menos dignos.
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