A ligação entre obesidade e demência já aparecia com nitidez nos dados, mas seguia pouco explicada em termos de mecanismo. Pesquisadores sabiam que carregar excesso de gordura corporal na meia-idade aumenta o risco de Alzheimer. O que ainda não estava claro era qual peça da obesidade conseguia chegar ao cérebro - e por qual trajeto isso acontecia.
Agora, uma molécula específica passou a ter evidências diretas a seu favor. Em tecido adiposo associado à obesidade, células de gordura produzem essa substância em grandes quantidades, a empacotam em partículas minúsculas, semelhantes a bolhas, e as lançam na corrente sanguínea.
Essas “bolhas” conseguem alcançar o cérebro - levando uma carga que, segundo este estudo, pode ajudar o Alzheimer a avançar com mais rapidez.
Uma molécula de gordura comum: fosfatidiletanolamina (PE)
A molécula em questão é a fosfatidiletanolamina, ou PE. Trata-se de uma das gorduras mais abundantes em todas as células humanas, representando de 15% a 25% de todos os lípidos celulares. Em adultos com excesso de peso, os níveis de PE aumentam.
Stephen T. C. Wong, Ph.D., que liderou a equipa no Hospital Metodista de Houston, comparou tecido adiposo de seis pacientes com obesidade e de seis pacientes sem obesidade que estavam a passar por cirurgia.
O resultado foi que a PE, por si só, distinguiu tecido de pessoas com obesidade do tecido de pessoas magras. Nenhum outro lípido traçou uma separação tão nítida. Levantamentos anteriores não tinham apontado um “marcador” desse tipo em amostras de gordura humana.
Minúsculos mensageiros transportam a gordura
A PE não fica confinada ao tecido adiposo. Em tecido com obesidade, as células de gordura embalam a PE em pequenas bolhas de membrana chamadas vesículas extracelulares, que entram na corrente sanguínea e conseguem chegar ao cérebro.
Esse caminho foi testado de forma direta. Os investigadores recolheram vesículas de ratos mantidos numa dieta com 60% de gordura, injetaram essas vesículas nas veias da cauda de ratos com predisposição ao Alzheimer e, horas depois, examinaram o cérebro.
As vesículas efetivamente chegaram ao destino. Além disso, a PE transportada por elas também foi detetada, confirmando que o lípido atravessou e entrou no cérebro.
Depósitos de gordura alteram células do cérebro
Uma vez no interior do cérebro, a PE começou a desorganizar processos celulares. Gotículas de gordura acumularam-se na micróglia, as células imunitárias residentes do cérebro. Em condições saudáveis, a micróglia remove detritos e ajuda a manter “organizados” os ambientes em torno dos neurónios.
Carregada dessas gotículas, a micróglia passa para um estado diferente - um estado que pesquisas anteriores já associavam a inflamação e a menor capacidade de limpeza em cérebros envelhecidos.
As células T - outro tipo de célula imunitária capaz de entrar no cérebro - apresentaram sinais de exaustão semelhantes aos observados no esgotamento imunitário crónico. Genes ligados à inflamação e ao uso de energia tiveram o seu padrão de atividade reconfigurado.
Nos neurónios excitatórios, que são os mais ativos nos circuitos de memória, a produção de amiloide - a proteína que se acumula em depósitos pegajosos centrais no Alzheimer - aumentou.
“Obesidade pode mudar a forma como os sinais chegam ao cérebro. A boa notícia é que talvez possamos intervir nesse processo”, disse Wong.
O que os ratos revelaram
Para entender o que essas alterações significavam para a memória, os investigadores recorreram a duas linhagens de ratos de Alzheimer amplamente utilizadas.
Ratos de Alzheimer alimentados com dietas ricas em gordura ganharam peso, desenvolveram o padrão de vesículas com gordura e tiveram pior desempenho em dois testes padronizados de memória, em linha com estudos anteriores sobre dietas com alto teor de gordura nesses modelos.
No labirinto aquático de Morris, o desempenho piorou: os animais demoraram mais para encontrar uma plataforma oculta. Quando um objeto novo era colocado ao lado de um objeto familiar, eles passavam menos tempo a explorá-lo - sinal de que a memória de reconhecimento estava a falhar.
O tecido cerebral desses ratos exibiu o mesmo acúmulo de gotículas lipídicas. A mesma mudança de estado da micróglia. E o mesmo sinal elevado de amiloide que as amostras humanas já tinham indicado.
As amostras de gordura humana usadas na análise de lípidos vieram de uma colaboração com o Centro Médico Wexner da Universidade Estadual de Ohio, onde pacientes com e sem obesidade doaram tecido sob revisão ética padrão.
Olhando além dos sintomas
Em seguida veio a etapa que levou o estudo além da descrição do fenómeno. Milhares de compostos foram avaliados contra neurónios cultivados a partir de células estaminais que carregavam mutações hereditárias de Alzheimer.
Um composto destacou-se: ebselen. Essa molécula foi estudada pela primeira vez há décadas pelas suas propriedades antioxidantes.
Ratos de Alzheimer que receberam ebselen por via oral durante seis semanas apresentaram níveis mais baixos de PE, micróglia menos reativa, menor acúmulo de gotículas de gordura e melhores pontuações nos testes de memória. O fármaco pareceu reequilibrar o desajuste, em vez de apenas encobrir os sintomas.
O ebselen não é uma substância nova. Ele já foi testado em humanos para outras condições, o que torna o resultado relevante: um composto que já passou por avaliação de segurança tende a ter um caminho mais curto até um ensaio clínico do que outro desenvolvido do zero.
Por que esta descoberta importa
Até este artigo, a ligação entre obesidade e demência era sobretudo correlacional. Adultos com obesidade na meia-idade enfrentam maior risco de demência - dados de 2022 estimaram o aumento em 39% nas mulheres -, mas ninguém tinha identificado o mensageiro molecular específico.
Isso agora mudou. Este trabalho aponta a molécula de gordura como sendo a PE e descreve, etapa por etapa, como ela desorganiza células imunitárias e neurónios num cérebro vulnerável ao Alzheimer. Com isso, os investigadores passam a ter um alvo potencialmente tratável.
Reduzir a PE - seja por alimentação, perda de peso ou pelo reaproveitamento de um fármaco como o ebselen - torna-se uma estratégia concreta e plausível de ser testada em humanos.
Para quem está a gerir o peso na meia-idade, a mensagem ganha contornos mais objetivos: o cérebro pode estar a pagar um preço mais específico do que se imaginava - e esse preço agora tem nome.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário