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Doença de Alzheimer: testes de sangue podem detectar sinais precoces em adultos de meia-idade

Homem segurando tubo de ensaio com sangue, tablet mostra imagem do cérebro, mesa com papéis e caneta.

A doença de Alzheimer às vezes parece surgir do nada: a pessoa começa a esquecer nomes, perde compromissos ou se confunde em lugares que sempre conheceu.

Na prática, porém, o processo costuma começar muito antes. Alterações no cérebro podem se iniciar anos antes de aparecerem problemas claros de memória.

Por isso, pesquisadores vêm tentando identificar a doença de Alzheimer durante essa fase “oculta”.

Um estudo recente indica que testes de sangue simples podem ajudar a detectar sinais iniciais em adultos de meia-idade que se consideram saudáveis.

Os achados animam, mas ainda exigem confirmação com mais pesquisas.

A doença de Alzheimer começa muitos anos antes

A doença de Alzheimer não aparece de forma repentina. Duas proteínas ligadas ao avanço da doença - amiloide beta e tau - vão se acumulando lentamente no cérebro ao longo de muitos anos, antes que surja qualquer sintoma perceptível.

A patologia da doença de Alzheimer começa anos antes de os sintomas aparecerem”, afirmou a Dra. Kristine Yaffe, autora sênior do estudo e pesquisadora de destaque na UCSF.

Esse longo período sem sintomas traz um problema e, ao mesmo tempo, uma oportunidade.

Por um lado, a condição pode evoluir silenciosamente por anos. Por outro, essa mesma janela pode oferecer tempo precioso para intervenções precoces.

Detectar cedo pode mudar os resultados

Encontrar a doença antes do início dos sintomas muda o cenário. Em vez de apenas lidar com o declínio, médicos podem ter a chance de desacelerá-lo.

Detectar a doença cedo significa que os pacientes podem focar em fatores de risco modificáveis e talvez buscar outros cuidados”, explicou Yaffe.

Medicamentos antiamiloide já aprovados para Alzheimer em fase inicial estão sendo avaliados agora em pessoas que ainda não apresentam sintomas.

Além disso, os hábitos do dia a dia têm grande peso nesse contexto, incluindo pressão arterial, atividade física, alimentação, sono e manter a mente ativa.

Testes de sangue oferecem uma alternativa mais simples

Até pouco tempo, a única maneira de verificar proteínas associadas ao Alzheimer no corpo era por meio de punção lombar ou de um exame de imagem cerebral caro.

Nenhuma dessas opções é adequada para testar grandes populações.

Os testes de sangue mudam essa realidade porque são mais baratos, rápidos e fáceis de aplicar. Eles já funcionam bem em pacientes com sintomas.

A grande dúvida era se teriam o mesmo desempenho em pessoas que se sentem totalmente bem - especialmente aquelas ainda na meia-idade.

Analisando adultos aparentemente saudáveis

É aqui que entram Xiaqing Jiang e sua equipe. Eles recorreram a dados de um estudo de saúde de longo prazo chamado CARDIA (Coronary Artery Risk Development in Young Adults).

A partir dessa coorte, reuniram 1350 participantes para a análise.

A idade média era 61 anos, e a amostra era diversificada de forma relevante: 58% eram mulheres, 45% eram pessoas negras e 55% eram pessoas brancas.

Cerca de 60% tinham hipertensão. Ou seja, tratava-se de pessoas com questões de saúde comuns, e não de um grupo selecionado de “super saudáveis”.

Sinais ocultos surgiram em parte dos participantes

Para medir proteínas no sangue, os pesquisadores usaram um teste aprovado pela FDA chamado Fujirebio Lumipulse assay. O exame quantificou três proteínas: tau fosforilada 217 (também escrita como p-tau217), amiloide beta 42 (Aβ42) e amiloide beta 40 (Aβ40).

Com essas medidas, foram calculadas duas razões principais: p-tau217/Aβ42 e Aβ42/Aβ40.

Essas razões tendem a refletir melhor o que ocorre no cérebro do que a leitura isolada de uma única proteína.

Entre os participantes, 6% tiveram resultado positivo para a razão p-tau217/Aβ42, e outros 8% ficaram na faixa limítrofe.

Na razão Aβ42/Aβ40, os números foram maiores: 15% testaram positivo e 68% caíram na zona limítrofe.

Vale lembrar: todas essas pessoas se sentiam bem e não apresentavam sinais evidentes de problemas de memória.

Ligações sutis com habilidades cognitivas

Ainda assim, os biomarcadores positivos se associaram a diferenças reais - embora discretas - no desempenho em algumas tarefas mentais.

Quem tinha resultados piores nos biomarcadores obteve pontuações menores em testes de velocidade de processamento e de função executiva.

Velocidade de processamento descreve quão rapidamente alguém reage a informações que mudam. Já a função executiva envolve capacidades como planejar, organizar e manter o foco.

Por outro lado, a memória e as habilidades cognitivas gerais pareciam normais no momento da avaliação.

Isso sugere que sinais iniciais podem se manifestar primeiro em algumas áreas da cognição, e não de maneira uniforme.

Um indício de declínio cognitivo

A equipe também revisou o desempenho dos participantes nos cinco anos anteriores ao teste de sangue.

Aqueles com biomarcadores positivos vinham perdendo desempenho mais rapidamente, sobretudo em memória verbal.

Os participantes positivos na razão Aβ42/Aβ40 foram cerca de 4 vezes mais propensos a apresentar uma queda perceptível, enquanto os positivos na razão p-tau217/Aβ42 foram cerca de 2.5 vezes mais propensos.

As mudanças foram pequenas no geral, mas o padrão se destacou.

O problema dos falsos positivos

Ao testar um grupo grande de pessoas saudáveis para uma condição relativamente incomum, é esperado que surjam muitos alarmes falsos. É um efeito típico de programas de rastreamento.

Existe a possibilidade de falsos positivos e eles só podem ser usados para Alzheimer, não para outras demências, que representam cerca de 60% a 70% de todos os casos de demência”, observou Yaffe.

Mesmo quando o teste acerta, ele cobre apenas uma parte do panorama mais amplo das demências.

Tanto Yaffe quanto os autores do comentário concordam que esses exames ainda não estão prontos para o rastreamento rotineiro da população geral.

Um único teste de Alzheimer não basta

No estudo, os marcadores sanguíneos foram medidos apenas uma vez. Como a doença de Alzheimer se desenvolve lentamente ao longo de décadas, uma única coleta funciona como uma foto isolada de um filme longo.

Ainda é necessário acompanhar como esses marcadores variam ao longo do tempo e verificar se resultados positivos precoces realmente se convertem em demência no futuro.

Por enquanto, essa parte da história ainda não está esclarecida.

Testes para Alzheimer mostram potencial

O estudo de Jiang representa um avanço importante. Ele sugere que testes de sangue conseguem captar sinais da doença de Alzheimer em adultos de meia-idade que ainda se sentem saudáveis, e que esses sinais acompanham alterações pequenas, porém reais, no pensamento.

Ainda não chegamos ao ponto em que um exame de sangue simples consiga prever com segurança quem desenvolverá demência.

O que existe, por enquanto, é o início de uma possibilidade promissora.

Com mais tempo e novas pesquisas, aquela coleta de sangue do check-up anual pode se tornar um dos exames mais relevantes da vida.

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