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Nectome no Oregon: preservação do cérebro após a morte e o conectoma

Jovem cientista analisa modelo de cérebro em laboratório com equipamentos e imagens médicas ao redor.

Em estados como Oregon, a premissa legal de poder escolher quando morrer dá a pacientes autonomia sobre as últimas horas. Em Portland, uma empresa passou a tratar esse mesmo intervalo de tempo de outro jeito: como a oportunidade de realizar preservação do cérebro após a morte com dano celular quase inexistente.

Com uma técnica recém-desenvolvida, o grupo conseguiu preservar um cérebro inteiro de porco com um nível de precisão que só se torna viável quando o momento da morte é planeado com antecedência.

A Nectome - startup sediada em Portland responsável pelo trabalho - pretende oferecer esse mesmo procedimento a pessoas com doença terminal.

Preservação do cérebro após a morte

A equipa da Nectome, dedicada à preservação cerebral, estruturou o protocolo para manter intacta a arquitectura do cérebro no instante da morte. Para os testes, optaram por porcos porque os cérebros e os sistemas cardiovasculares desses animais se assemelham bastante aos humanos.

Cerca de 10 minutos depois da parada cardíaca, os investigadores introduziram um tubo no coração e fizeram a drenagem do sangue.

Em seguida, fizeram circular pelo cérebro um banho de aldeídos - substâncias químicas que “fixam” o tecido ao criar pontes entre proteínas -, estabilizando as estruturas no lugar.

Depois disso, um segundo conjunto de líquidos substituiu a água presente no tecido por crioprotetores, reduzindo o risco de formação de cristais de gelo durante o arrefecimento. A temperatura caiu para aproximadamente -32°C (-26°F), faixa em que o tecido pode permanecer estável e sem perturbações por séculos.

O tempo decide tudo

O procedimento mostrou ter uma margem de acerto muito estreita. Quando a equipa iniciou o processo por volta de 18 minutos após a morte, amostras do córtex (a parte mais externa do cérebro) apresentaram sinais nítidos de degradação celular.

Ao reduzir esse atraso para pouco menos de 14 minutos, o desfecho mudou por completo. Ao microscópio, o tecido exibiu preservação limpa de neurónios, das ligações entre eles e das moléculas que sustentam essa organização.

Esse intervalo de apenas alguns minutos é central para a proposta. Assim que enzimas em células em processo de morte começam a digerir o tecido ao redor, nenhuma química aplicada com cuidado consegue recompor o que foi desfeito.

O conectoma é a chave

Todo o esforço assenta numa hipótese específica: para muitos investigadores, o “mapa” tridimensional das conexões do cérebro - o conectoma - contém a informação que dá origem aos pensamentos e às memórias de uma pessoa.

Se essa ideia estiver correcta, conservar o conectoma poderia, em teoria, preservar a própria mente. Os resultados com o cérebro de porco indicam que a equipa consegue “travar” a fiação cerebral de forma suficiente para que ela seja mapeada mais tarde, embora extrair e interpretar essas informações seja um desafio separado e ainda sem solução.

Como referência, o mapeamento de um pequeno trecho do cérebro de um rato levou sete anos. E o cérebro humano é cerca de 1.000 vezes maior. Até hoje, não existe método para reconstruir uma mente a partir de um cérebro congelado.

A oferta para pacientes

Dentro de alguns meses, a Nectome planeia convidar pacientes terminais a irem ao Oregon, onde a legislação permite a morte assistida por médico. A proposta é que os pacientes passem alguns dias com a família, tomem a medicação prescrita e, depois que médicos confirmarem o óbito, a preservação seja iniciada.

Essa combinação é intencional. Na maior parte das tentativas de criônica, o processo começa após uma morte natural. Nesses casos, o cérebro frequentemente fica sem circulação sanguínea por bem mais tempo do que 14 minutos - o limite apontado pelos dados obtidos com os porcos.

Quem aderir teria de doar o corpo e o cérebro para investigação científica. A partir daí, os cérebros ficariam armazenados por tempo indefinido, na expectativa de que alguma tecnologia futura possa, um dia, conseguir lê-los ou reanimá-los.

Críticas e contestação

A proposta não é consensual. João Pedro de Magalhães - biólogo da Universidade de Birmingham - caracteriza o método como fixação química, e não como medicina. Na visão dele, o procedimento mantém o cérebro preservado, porém biologicamente morto, e não há técnica actual capaz de trazê-lo de volta.

Ele também questiona se reconstruir a “fiação” de uma pessoa equivaleria a ressuscitá-la. Mesmo que se obtenha uma cópia perfeita, ela seria uma entidade distinta do original, aproximando o projecto mais de duplicação do que de reanimação.

Outros cientistas apontam ainda que a distância entre preservar a estrutura e recuperar a função pode ser definitiva. Mapear um conectoma não revela automaticamente como aquele sistema produzia comportamento em vida; a tradução entre estrutura e funcionamento continua a ser a grande incógnita.

Redefinindo a própria morte

O trabalho também entra em atrito com a definição médica tradicional de morte. Brian Wowk - investigador de preservação de tecidos na Califórnia - argumenta que declarar alguém morto no exacto momento em que o fluxo sanguíneo cessa é, em grande parte, uma decisão prática, e não uma certeza biológica.

Se a estrutura completa do cérebro se mantiver por minutos após essa janela se abrir, a fronteira entre “morrendo” e “morto” torna-se mais difícil de traçar. Uma pessoa considerada morta pelos critérios actuais ainda poderia reter a maior parte do que a definia.

Trabalhos recentes indicando que investigadores conseguem reanimar tecido cerebral congelado sem danos em nível celular já mudaram a discussão. Os resultados com porcos empurram o tema ainda mais para um terreno que hospitais, especialistas em ética e famílias terão de enfrentar.

O que vem a seguir

Pela primeira vez, uma equipa congelou e manteve no lugar o detalhe celular dentro de um cérebro completo de mamífero após a morte clínica. As conexões não desaparecem no instante em que o coração pára - desde que alguém actue depressa.

Os próximos passos dependem, em parte, de voluntários. Se pacientes terminais passarem a escolher esse caminho, a Nectome reunirá os primeiros cérebros humanos preservados sob condições controladas - material concreto para estudos futuros.

Se algum desses cérebros poderá um dia dar origem a uma mente reanimada ficará nas mãos de uma geração futura de cientistas. O trabalho com porcos não garante esse resultado; apenas indica que a possibilidade já não parece obviamente descartada.

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