Salvar os morcegos norte-americanos de um fungo letal exigiu que cientistas entendessem o animal em detalhe - a química da pele, as respostas imunitárias e os microrganismos que o cobrem durante a hibernação.
O que quase ninguém tinha considerado era investigar as bactérias das paredes das cavernas onde esses mesmos morcegos passam o inverno. Um novo estudo no nordeste da China resolveu olhar exatamente para esse ponto.
Uma doença se instala
O fungo por trás dessas mortes é o Pseudogymnoascus destructans. Ele se dá bem em ambientes frios e húmidos e se instala no focinho, nas orelhas e nas asas de morcegos em hibernação.
A enfermidade ficou conhecida como síndrome do nariz branco por causa da penugem esbranquiçada, semelhante a pó, que aparece nos rostos infectados. Desde o primeiro surto, registado perto de Albany, no estado de Nova York, em 2006, o avanço foi rápido.
Uma revisão recente indica que 12 das 47 espécies nativas de morcegos na América do Norte já foram afetadas, e 3 agora estão ameaçadas de extinção. Até ao fim do ano passado, os casos confirmados já se espalhavam por 40 estados dos EUA e 9 províncias canadenses.
Em muitos locais, colónias inteiras encolheram de 90% a 100%. Num ponto de Minnesota que antes abrigava mais de 8,000 morcegos-marrons-pequenos, hoje restam menos de 100.
O enigma asiático
Na Europa e na Ásia, morcegos carregam o mesmo fungo na pele a cada inverno - e, ainda assim, não morrem por causa dele. Esses animais compartilham com o patógeno uma história evolutiva que se estende por milhares de anos.
Com o tempo, algo se ajustou: tolerância, defesas, aliados microbianos, ou uma combinação desses fatores. Já os morcegos norte-americanos não tiveram essa convivência prévia, o que levou investigadores a direcionar o olhar para cavernas de morcegos na Ásia.
Os microrganismos cutâneos que revestem morcegos asiáticos já foram examinados com alguma profundidade. Um artigo de 2024, dedicado a uma espécie chinesa, descreveu novas bactérias capazes de impedir o fungo em testes de laboratório.
As paredes das cavernas - a rocha nua onde os morcegos ficam pendurados durante todo o inverno - permaneceram, em grande parte, fora do radar científico. A nova pesquisa foi desenhada para preencher essa lacuna.
Mapeando as bactérias das paredes das cavernas
No nordeste da China, morcegos que hibernam voltam às mesmas paredes de caverna ano após ano, mantendo a pele encostada na pedra durante meses. Se essa rocha já hospeda micróbios que produzem substâncias antifúngicas, os animais podem adquirir parte da proteção de inverno simplesmente por estarem ali.
Uma equipa liderada por Haixia Leng, investigadora da Universidade Normal do Nordeste (NENU), em Changchun, decidiu testar essa hipótese.
Durante a temporada de hibernação, os cientistas recolheram amostras das comunidades bacterianas das paredes e, em seguida, colocaram cada isolado para “enfrentar” o fungo em placas de Petri.
O grupo também combinou o cultivo em laboratório com a leitura de material genético diretamente da rocha. Esse segundo procedimento detecta microrganismos que não crescem em placas - e eles representaram uma fatia considerável do que vive ali.
Dezenove aliados bacterianos
A equipa identificou 19 bactérias das paredes das cavernas que, em ensaios laboratoriais, travam o crescimento do fungo da síndrome do nariz branco. Algumas apenas reduziram o ritmo de expansão; outras o bloquearam por completo.
Entre essas 19, 9 nunca tinham sido descritas antes como inibidoras de fungos. Ninguém as tinha catalogado como parte de uma defesa natural associada a morcegos em hibernação.
Na prática, a descoberta quase duplica o conjunto de micróbios candidatos a ajudar no combate à doença.
Outro achado foi que as comunidades bacterianas pareciam semelhantes tanto em cavernas com fungo detetável quanto naquelas sem sinal dele. Isso sugere que esses micróbios protetores são residentes “de base” da rocha, e não uma resposta que só aparece quando o patógeno chega.
Químicos no ar
Sete dessas bactérias das paredes não precisaram encostar no fungo para detê-lo. Elas libertaram compostos orgânicos voláteis - moléculas pequenas que se dispersam no ar como gás - capazes de matar o fungo ou, pelo menos, paralisá-lo no ambiente ao redor.
Esse mecanismo vem ganhando força discretamente como estratégia de tratamento. Num teste de campo anterior, compostos semelhantes, também transportados pelo ar, foram pulverizados por um túnel na Georgia, e a colónia local de morcegos se recuperou depois.
Outros trabalhos já mostraram que compostos presentes em cavernas podem atacar o fungo ao nível celular, danificando o ADN e comprometendo a estrutura das células. O novo estudo adiciona 7 moléculas desse tipo à lista conhecida.
O interesse por essas substâncias “aéreas” tem um motivo prático: elas conseguem se espalhar pela caverna por conta própria e alcançar morcegos em pontos de difícil acesso para pessoas.
Além disso, como vêm de microrganismos que já existem no interior da caverna, não seria necessário reaplicá-las em todas as temporadas.
O que muda a partir de agora
Pela primeira vez, cientistas dispõem de um catálogo de bactérias das paredes das cavernas com atividade antifúngica medida. E 9 dessas estirpes nem sequer estavam no radar do campo até agora.
A próxima fase precisa acontecer dentro da caverna, não apenas na placa de Petri. Estudos em condições reais terão de demonstrar se “semear” locais com esses micróbios - ou com os compostos que eles libertam - de facto protege morcegos durante invernos verdadeiros.
Também será necessário mapear como os micróbios das paredes se relacionam com as bactérias que já vivem na pele dos morcegos, que formam a primeira linha de defesa.
Se ao menos uma parte dessas novas estirpes funcionar no campo, gestores de conservação ganham ferramentas novas para enfrentar uma crise que, até aqui, quase não teve opções. A urgência é alta.
Morcegos ajudam a manter populações de insetos sob controlo, incluindo mosquitos e pragas agrícolas. Recuperar os seus números teria efeitos em cadeia em fazendas, florestas e na saúde pública.
Ao que tudo indica, a parede da caverna sempre fez parte desta história.
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