O mau hálito de cachorro aparece em praticamente toda consulta veterinária. As soluções mais comuns - escovação, antibióticos ou um enxaguante químico - tentam resolver o problema “de fora para dentro”, atacando o cheiro já formado.
Agora, pesquisadores estão testando algo bem menos óbvio: compostos extraídos do melaço.
Um grupo de cientistas de alimentos nem estava pensando em dentes de cães. O foco era aquele subproduto escuro e pegajoso que sobra do refino do açúcar.
O achado pode mudar o que veterinários passam a considerar como próxima alternativa.
Por que o hálito do cachorro fica ruim
O mau hálito em cães, na maioria das vezes, indica que o microbioma oral saiu do equilíbrio, permitindo que bactérias menos desejáveis dominem a placa, as bolsas gengivais e a camada sobre a língua.
Enquanto se alimentam, essas bactérias liberam gases com odor forte - compostos de enxofre e outras moléculas pequenas - que escapam a cada expiração e deixam aquele cheiro inconfundível.
Dois gêneros aparecem com frequência quando pesquisadores analisam com detalhe a boca de cães com doença gengival: Porphyromonas e Fusobacterium.
Segundo um estudo com amostras orais de cães, a quantidade desses microrganismos pode aumentar quase três vezes em animais com problemas na gengiva.
Escovar ajuda. Petiscos dentais e limpezas profissionais ajudam ainda mais. O problema é que a adesão costuma ser baixa e, mesmo assim, a maioria dos cães adultos acaba desenvolvendo algum grau de doença periodontal.
Compostos vegetais no melaço
Este trabalho novo saiu de um laboratório de ciência de alimentos. Hongye Li, pesquisador da Jiangnan University, em Wuxi, China, vinha estudando os resíduos do refino da cana-de-açúcar.
A equipe de Li passou a se perguntar se esse fluxo de resíduos poderia ter utilidade para a saúde de pets.
Esse resíduo escuro e viscoso - o melaço - normalmente é tratado como sobra industrial. Porém, ele concentra uma carga elevada de polifenóis, a mesma grande família de compostos vegetais presente, por exemplo, no chá verde e no vinho tinto.
Um artigo anterior já havia mostrado que polifenóis do melaço reduzem o crescimento de bactérias associadas a cáries em placas de Petri. A dúvida era se o efeito se manteria fora do laboratório, dentro da boca de um cão.
Dentro do ensaio
O grupo, que também incluía Yin Fei e Wei Zhao, recrutou dez cães saudáveis com mau hálito.
Os animais não eram de laboratório. Eram pets de casa, levados ao estudo com consentimento dos tutores.
Os pesquisadores aplicaram uma pulverização do extrato de melaço diretamente na boca de cada cão. Em seguida, coletaram saliva e fizeram swabs para avaliar a presença de bactérias.
A avaliação do hálito foi feita por avaliadores humanos treinados. Além disso, equipamentos de laboratório mediram a “assinatura” química do hálito dos cães.
Mudanças após a primeira hora
Em até uma hora, a diferença foi marcante. Os avaliadores relataram quase nenhum odor detectável.
Os compostos químicos normalmente ligados ao cheiro caíram para níveis abaixo do que os instrumentos conseguiam detectar.
Só isso poderia ser explicado como “camuflagem”: se você coloca algo perfumado na boca do cachorro, talvez apenas esconda o mau cheiro. A equipe checou essa possibilidade, e as medições descartaram essa hipótese.
Os compostos malcheirosos não estavam sendo encobertos; eles pareciam ter sido degradados ou sequer produzidos.
“Essa pulverização tem um cheiro leve, vegetal e parecido com melaço, mas não é forte nem desagradável”, disse Li.
Químicos na saliva dos cães
Uma dose única chama atenção. Mas o que tutores e veterinários querem, de fato, é um efeito que se sustente. Por isso, os cães receberam a pulverização diariamente durante um mês.
No dia 30, a própria saliva havia mudado de um jeito que sugeria algo além de simplesmente mascarar odores.
Os compostos mais fétidos caíram de forma acentuada, incluindo substâncias gordurosas e rançosas associadas a bactérias nocivas.
O conjunto de bactérias que vive na boca também passou a ter outro perfil.
Porphyromonas e Fusobacterium, os dois grupos mais ligados ao hálito ruim, perderam espaço. A boca não ficou estéril, mas se tornou bem menos favorável aos principais causadores do problema.
Como os polifenóis funcionam
Trabalhos adicionais em laboratório e simulações em computador apontaram o que esses polifenóis provavelmente fazem. A equipe descreveu três mecanismos diferentes.
As moléculas parecem se ligar diretamente aos compostos de odor que ficam na saliva, “prendendo” essas substâncias antes que consigam evaporar.
Elas também interferem nas enzimas bacterianas responsáveis por gerar compostos malcheirosos, desativando esse processo.
E, ao longo de semanas, essas bactérias parecem diminuir, à medida que os polifenóis vão reduzindo gradualmente os microrganismos indesejados. Cada mecanismo, isoladamente, ajuda. Em conjunto, atacam o problema por três frentes.
Uma revisão recente sobre tratamentos para doença periodontal canina defende que essa é exatamente a direção que a área precisa: uma opção mais suave do que antibióticos de amplo espectro e, ao mesmo tempo, mais direcionada.
Limitações do estudo e próximas pesquisas
Este trabalho estabelece um passo novo. Até este estudo, os polifenóis do melaço só tinham demonstrado suprimir bactérias nocivas em placas de Petri.
Em pets vivos, os mesmos compostos agora neutralizam moléculas de odor, desligam enzimas que produzem cheiro e reduzem as bactérias mais associadas ao mau hálito.
O ensaio foi pequeno, com dez cães saudáveis e apenas uma equipe de pesquisa. Estudos futuros, com animais que tenham doença gengival ativa, vão testar até onde esse efeito se mantém.
O que muda é o conjunto de opções. Para tutores que não conseguem escovar os dentes de um cão agitado, uma pulverização feita a partir de resíduo agrícola oferece aos veterinários uma alternativa prática entre as limpezas.
Os pesquisadores afirmam que a mesma abordagem multifatorial pode, no futuro, influenciar cuidados odontológicos humanos, já que enxaguantes bucais ainda costumam depender de antibióticos amplos ou de ingredientes químicos mais agressivos.
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