Cegueira, pneumonia, diarreia grave e até morte - infecções pelo vírus do sarampo, sobretudo em crianças, podem trazer consequências devastadoras.
Felizmente, existe uma proteção segura e eficaz. Estima-se que as vacinas contra o sarampo tenham evitado mais de 60 milhões de mortes entre 2000 e 2023.
Por que o sarampo voltou a aumentar no Reino Unido e no mundo
Mesmo com esse histórico de sucesso, os casos de sarampo estão crescendo rapidamente no Reino Unido e em diversas partes do planeta. Essa alta global resulta de uma combinação de fatores, que vai da hesitação vacinal a campanhas de imunização não realizadas ou incompletas, deixando muitas crianças sem proteção e, portanto, vulneráveis.
Mas o problema pode ir além do próprio sarampo. Evidências recentes indicam que a vacinação contra o sarampo talvez traga benefícios adicionais inesperados. Estudos mostram que crianças vacinadas apresentam um risco consideravelmente menor de infecções causadas por doenças que não têm relação com o sarampo.
"Amnésia do sarampo" e o apagamento da memória imunológica
Uma hipótese para explicar esse benefício mais amplo é a chamada "amnésia do sarampo". O termo descreve a capacidade do vírus do sarampo de apagar partes da memória imunológica do organismo.
O sistema imune é formado por diferentes tipos de células que nos defendem de infecções. Algumas produzem anticorpos que neutralizam vírus; outras reconhecem e eliminam células infectadas. A memória imunológica é o que permite ao corpo “lembrar” de infecções anteriores e reagir mais rapidamente quando encontra o mesmo agente novamente.
No entanto, a infecção pelo sarampo pode diminuir a quantidade e a variedade dessas células de memória - o que deixa crianças suscetíveis a muitas doenças contra as quais já tinham desenvolvido imunidade. Em outras palavras, o vírus não apenas provoca doença no curto prazo: ele pode também desfazer anos de proteção imunológica.
Em um estudo, pesquisadores observaram que, após uma infecção por sarampo em crianças não vacinadas, entre 11% e 73% dos anticorpos direcionados a outras doenças foram perdidos. Essa redução da imunidade não foi vista em crianças que tinham recebido a vacina, o que sugere que a vacinação impede esse efeito prejudicial.
Essa perda ampla de proteção pode ajudar a entender por que surtos de sarampo frequentemente são seguidos por aumentos em outras doenças infecciosas. Pesquisas em andamento investigam o impacto da "amnésia do sarampo" em regiões como a África Ocidental, onde o sarampo e outras infecções ainda são comuns.
Uma vacina que faz mais?
Outra explicação para os benefícios mais abrangentes da vacinação é a teoria do "efeito não específico". Diferentemente da "amnésia do sarampo", que descreve como o vírus enfraquece a imunidade, o "efeito não específico" propõe que a vacina contra o sarampo fortalece ativamente o sistema imune contra uma variedade de patógenos.
Trabalhos recentes indicam que a vacinação contra o sarampo pode melhorar o desempenho de certas células imunológicas, tornando-as mais eficientes no combate a outras doenças. Para alguns cientistas, esse possível reforço - e não apenas a prevenção da amnésia - pode ser a principal razão pela qual crianças vacinadas apresentam melhores desfechos de saúde de forma geral.
A vacina contra o sarampo é uma vacina de vírus vivo atenuado, isto é, utiliza uma versão enfraquecida do vírus para provocar uma resposta imune robusta. Vacinas vivas, como a BCG (contra a tuberculose), são conhecidas por gerar efeitos amplos de “treinamento” do sistema imune, o que pode explicar essa proteção não específica.
Perigo esquecido
Na década de 1960, antes de a vacinação se disseminar amplamente, o sarampo causava cerca de 2.6 milhões de mortes por ano. Hoje isso parece difícil de imaginar - e, em parte, esse é o problema.
Com o sarampo se tornando raro, a sociedade passou a perder a noção da gravidade da doença. Esquecemos o quão contagiosa ela é (uma pessoa infectada pode transmitir o vírus para até 90% das pessoas não vacinadas que estejam por perto) e também deixamos de reconhecer o quanto a vacinação funciona (duas doses oferecem mais de 90% de proteção de longo prazo).
E, em alguns ambientes, essa memória enfraquecida foi substituída por algo ainda mais perigoso: a desconfiança. Desinformação, mitos sobre vacinas e discursos antivacina se espalham, assim como o próprio vírus.
Assim, quer a proteção adicional da vacina venha da prevenção da "amnésia do sarampo", de um "efeito não específico" de reforço imunológico, ou das duas coisas, a mensagem prática é a mesma: vacine as crianças contra o sarampo. Porque, ao protegê-las do sarampo, talvez estejamos também protegendo-as de muito mais.
Antony Black, Professor, Ciências da Vida, University of Westminster
Este artigo foi republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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