Quando surgem surtos de doenças evitáveis por vacina, como o sarampo, mesmo havendo imunizantes altamente eficazes disponíveis, é comum concluir que mães e pais que não vacinam os filhos estão mal-informados, agindo por egoísmo ou foram levados por desinformação.
Como professores com experiência em política de vacinação e economia da saúde, defendemos que a decisão de não vacinar vai além de boatos ou simples hesitação.
Na nossa avaliação, ela também passa pela teoria dos jogos - um modelo matemático que ajuda a entender como pessoas razoáveis podem tomar decisões que, no conjunto, acabam produzindo resultados que colocam todos em risco.
A teoria dos jogos mostra que a hesitação vacinal não é, necessariamente, um fracasso moral; ela pode ser apenas a consequência previsível de um sistema em que os incentivos individuais e os incentivos coletivos não estão alinhados.
Teoria dos jogos encontra as vacinas
A teoria dos jogos estuda como as pessoas decidem quando o resultado do que fazem depende das escolhas dos outros. Em trabalhos sobre o tema, o matemático John Nash, vencedor do Prémio Nobel e retratado no filme Uma Mente Brilhante, demonstrou que, em muitas situações, decisões racionais do ponto de vista individual não geram automaticamente o melhor desfecho para o grupo.
As decisões sobre vacinação ilustram esse ponto com clareza. Ao avaliar se deve vacinar uma criança contra o sarampo, por exemplo, um responsável pondera o pequeno risco de efeitos adversos da vacina em comparação com os riscos da própria doença. Só que há um elemento decisivo: o risco de contrair a doença muda conforme o que as outras famílias decidem.
Quando quase todos se vacinam, a imunidade de rebanho - isto é, imunizar pessoas em número suficiente - interrompe a propagação. Porém, depois que essa proteção coletiva é atingida, algumas famílias podem concluir que, para o seu filho, deixar de vacinar parece a alternativa menos arriscada.
Em outras palavras, por existir uma tensão básica entre escolha individual e bem-estar coletivo, depender apenas da decisão individual pode não ser suficiente para alcançar metas de saúde pública.
Isso torna a vacinação diferente da maioria das escolhas em saúde. Ao decidir se vai tomar um medicamento para hipertensão, por exemplo, o resultado depende essencialmente da sua decisão. Já com vacinas, as escolhas ficam interligadas - todos estão conectados.
Essa interdependência apareceu de forma marcante no Texas, onde teve origem o maior surto de sarampo nos Estados Unidos em uma década. À medida que as taxas de vacinação diminuíram em comunidades específicas, a doença - que já havia sido declarada eliminada no país - voltou a circular.
Em um condado, a cobertura vacinal caiu de 96% para 81% em apenas cinco anos. Considerando que cerca de 95% das pessoas de uma comunidade precisam estar vacinadas para alcançar a imunidade de rebanho, essa queda criou as condições ideais para o surto atual.
Não se trata de coincidência; é a teoria dos jogos a acontecer diante dos nossos olhos. Com taxas elevadas, não vacinar pode parecer uma decisão racional para cada família, mas, quando famílias em número suficiente seguem esse caminho, a proteção coletiva deixa de existir.
O problema do carona
Esse mecanismo gera o que economistas chamam de problema do carona. Quando a vacinação está alta, uma pessoa pode aproveitar a imunidade de rebanho sem aceitar nem mesmo os riscos mínimos associados à vacina.
A teoria dos jogos antecipa algo contraintuitivo: mesmo com uma vacina hipoteticamente perfeita - eficácia impecável e zero efeitos adversos - programas de vacinação apenas voluntários nunca atingiriam 100% de cobertura. Assim que a cobertura fica “alta o bastante”, alguns indivíduos racionais sempre optarão por ser caronas, beneficiando-se da proteção criada pelos outros.
E quando as taxas caem - como caíram, de forma acentuada, nos últimos cinco anos - os modelos de doença preveem exatamente o que estamos a ver: o regresso de surtos.
A teoria dos jogos também aponta outro padrão: para doenças muito contagiosas, a vacinação costuma despencar rapidamente depois de preocupações com segurança, enquanto a recuperação acontece de forma bem mais lenta.
Isso também é uma propriedade matemática do sistema, porque queda e recuperação respondem a estruturas de incentivo diferentes. Quando surgem preocupações de segurança, muitos responsáveis ficam receosos ao mesmo tempo e deixam de vacinar, o que faz a cobertura cair depressa.
Já a recuperação é mais demorada porque exige, ao mesmo tempo, reconstruir confiança e superar o problema do carona - cada família espera que as outras retomem a vacinação primeiro. Mudanças pequenas de percepção podem provocar grandes mudanças de comportamento.
Cobertura mediática, redes sociais e mensagens de saúde influenciam essas percepções e podem empurrar comunidades para perto - ou para longe - desses limiares críticos.
A matemática ainda prevê como as decisões sobre vacinação tendem a formar aglomerações. À medida que responsáveis observam as escolhas uns dos outros, surgem normas locais: quanto mais pessoas deixam de vacinar numa comunidade, maior a probabilidade de outras seguirem o mesmo caminho.
Teóricos dos jogos chamam os bolsões de baixa adesão vacinal resultantes de aglomerados de suscetibilidade. Esses aglomerados permitem que doenças persistam mesmo quando a cobertura geral parece suficiente.
Uma média de 95% em nível estadual ou nacional pode significar cobertura uniforme, o que impediria surtos. Mas também pode significar algumas áreas perto de 100% e outras com taxas perigosamente baixas, capazes de sustentar surtos locais.
Não é um fracasso moral
Tudo isso implica que a queda acentuada nas taxas de vacinação já era algo previsto pela teoria dos jogos - e, por isso, diz mais sobre a vulnerabilidade do sistema do que sobre um fracasso moral de indivíduos.
Além disso, responsabilizar mães e pais por “escolhas egoístas” pode sair pela culatra, deixando-os mais na defensiva e menos propensos a reavaliar as próprias posições.
Seria mais útil adotar abordagens que reconheçam as tensões entre interesses individuais e coletivos e que trabalhem com - e não contra - os cálculos mentais que orientam decisões em sistemas interconectados.
Pesquisas mostram que comunidades a enfrentar surtos reagem de modo distinto a mensagens que tratam a vacinação como um problema da comunidade, em comparação com mensagens que insinuam falha moral.
Em um estudo de 2021 sobre uma comunidade com queda na cobertura vacinal, abordagens que reconheciam preocupações genuínas dos responsáveis e, ao mesmo tempo, destacavam a necessidade de proteção comunitária tornaram as pessoas 24% mais propensas a considerar vacinar. Já estratégias que enfatizavam responsabilidade pessoal ou sugeriam egoísmo reduziram a disposição de considerar a vacinação.
Isso confirma o que a teoria dos jogos prevê: quando as pessoas sentem que sua tomada de decisão está sob ataque moral, muitas vezes ficam mais entrincheiradas - em vez de mais abertas a mudar.
Estratégias de comunicação melhores
Compreender como as pessoas equilibram riscos e benefícios das vacinas aponta para formas mais eficazes de comunicação. Um exemplo é apresentar os riscos com clareza: a taxa de morte por sarampo, de 1-em-500, supera em muito os efeitos adversos graves da vacina, que são extraordinariamente raros.
Isso pode parecer evidente, mas costuma faltar no debate público. Além disso, comunidades diferentes precisam de estratégias diferentes - áreas com alta vacinação precisam de apoio para manter o rumo, enquanto áreas com baixa vacinação precisam de reconstrução de confiança.
A consistência tem enorme peso. Estudos indicam que, quando especialistas em saúde passam informações conflitantes ou mudam a mensagem, as pessoas tornam-se mais desconfiadas e decidem adiar vacinas. E táticas de medo muito dramáticas sobre doenças podem ter o efeito inverso, empurrando indivíduos para posições extremas.
Tornar as decisões de vacinação mais visíveis dentro das comunidades - por meio de conversas comunitárias e divulgação de dados ao nível das escolas, quando possível - pode ajudar a consolidar normas sociais positivas.
Quando responsáveis entendem que a vacinação protege membros vulneráveis da comunidade, como bebés pequenos demais para serem vacinados ou pessoas com condições médicas, isso ajuda a diminuir a distância entre interesses individuais e coletivos.
Profissionais de saúde continuam a ser a fonte mais confiável de informação sobre vacinas. Quando esses profissionais compreendem a dinâmica da teoria dos jogos, conseguem responder melhor às preocupações dos responsáveis, reconhecendo que, para a maioria, a hesitação nasce de uma ponderação de riscos - e não de oposição total às vacinas.
Y. Tony Yang, Professor Catedrático de Política de Saúde e Vice-Reitor Associado, Universidade George Washington, e Avi Dor, Professor de Política e Gestão em Saúde, Universidade George Washington
Este artigo foi republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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