Ataques cardíacos costumam ser encarados como eventos que prejudicam o coração, não o cérebro. Na prática clínica, a prioridade é restabelecer o fluxo sanguíneo e reduzir o risco de uma nova emergência cardíaca.
Ainda assim, muitas pessoas relatam algo inesperado durante a recuperação. Há quem passe a ter dificuldades de memória. Outras desenvolvem ansiedade, depressão ou queda cognitiva meses depois.
Há anos, cientistas desconfiam dessa relação, mas o motivo biológico permanecia pouco claro. Agora, pesquisadores do Instituto do Coração da Universidade de Ottawa podem ter identificado uma das peças que faltavam.
O estudo aponta uma molécula nociva chamada metilglioxal, que parece sair do coração lesionado e alcançar o cérebro após um infarto. Ao chegar lá, ela desencadeia inflamação e provoca danos em áreas associadas à memória, ao humor e ao controlo autonómico.
Infartos afetam o cérebro
Quem sobrevive a um infarto apresenta um risco muito mais elevado de problemas neurológicos do que a população em geral.
Trabalhos anteriores já sugeriam que a inflamação originada no tecido cardíaco danificado poderia circular pelo sangue e atingir o cérebro. Mesmo assim, ainda era difícil apontar com precisão qual substância estaria por trás desse efeito.
A equipa de Ottawa concentrou-se no metilglioxal, frequentemente abreviado como MG. Trata-se de uma molécula reativa produzida naturalmente durante a geração de energia nas células. Em condições normais, o organismo consegue eliminá-la de forma eficiente por meio de uma enzima chamada gloxalase 1, ou Glo1.
Durante um infarto, porém, a falta de oxigénio no tecido e o processo inflamatório fazem os níveis de MG subirem rapidamente, ao mesmo tempo em que o sistema de “limpeza” do corpo perde eficiência.
Molécula nociva ganha destaque
Os cientistas já sabiam que o MG participa de doenças como diabetes e doença de Alzheimer.
Além disso, estudos anteriores do mesmo grupo mostraram que o MG também se acumula no tecido cardíaco logo após um infarto, contribuindo para cicatrizes e para danos de longo prazo.
A partir daí, os pesquisadores levantaram uma pergunta decisiva: essa mesma molécula poderia circular na corrente sanguínea e causar prejuízo ao cérebro?
“Metilglioxal tem sido amplamente estudado pelo seu papel em doenças metabólicas, incluindo diabetes, mas sabe-se muito menos sobre a sua função noutras doenças”, disse o Dr. Erik Suuronen, coautor sénior do estudo.
“Num estudo anterior, descobrimos que o metilglioxal era produzido por tecido cardíaco em morte após um infarto. Com base nessa evidência, previmos que o metilglioxal no sangue teria como alvo outros órgãos e tecidos, incluindo o cérebro, e foi isso que de facto observámos”, explicou.
Algumas regiões do cérebro sofrem mais
Para investigar a hipótese, a equipa induziu infartos controlados em camundongos machos e fêmeas. Em seguida, analisou várias regiões cerebrais, incluindo o hipocampo, o córtex, o cerebelo e o tronco encefálico.
Os dados revelaram um aumento acentuado de compostos relacionados ao MG em todo o cérebro depois do infarto. No entanto, o impacto não foi uniforme entre as diferentes áreas.
O tronco encefálico apresentou o maior acúmulo, sobretudo em camundongos machos. O córtex e o hipocampo também exibiram aumentos expressivos. Essas regiões são essenciais para a memória, a regulação emocional e a comunicação entre coração e cérebro.
Cérebros masculinos apresentam dano mais intenso
Um dos resultados mais evidentes do estudo envolveu diferenças entre os sexos.
De forma consistente, os camundongos machos mostraram maior acumulação de MG do que as fêmeas em praticamente todas as regiões avaliadas. Eles também tiveram inflamação mais intensa e danos mais graves à barreira hematoencefálica.
Os cientistas consideram que as hormonas podem explicar parte dessa disparidade. O estrogénio parece proteger o tecido cardíaco após um infarto, enquanto a testosterona pode agravar a gravidade da lesão.
Como os machos desenvolveram lesões cardíacas maiores, também libertaram mais MG na corrente sanguínea.
Após infartos, a inflamação espalha-se
Quando entra no cérebro, o MG não fica inerte. Ele liga-se a um recetor chamado RAGE, que ativa vias inflamatórias.
O estudo identificou um aumento de moléculas inflamatórias em múltiplas regiões cerebrais após os infartos. As células imunitárias do cérebro também responderam rapidamente: a microglia passou para um estado ativado poucas horas depois do evento cardíaco.
Os pesquisadores observaram ainda que a barreira hematoencefálica enfraquece após infartos. As proteínas responsáveis por manter essa barreira “selada” caíram de forma significativa, especialmente no tronco encefálico.
Isso provavelmente permitiu a entrada de ainda mais MG no cérebro, alimentando um ciclo de inflamação e deterioração da própria barreira.
Novos tratamentos para infartos
Esses achados abrem caminho para terapias voltadas a proteger o cérebro depois de um infarto.
Já existem pesquisas com compostos capazes de “capturar” o MG ou aumentar a atividade da gloxalase. Algumas dessas abordagens estão a ser testadas para complicações da diabetes, mas também podem ajudar pacientes cardíacos a evitar declínio neurológico.
A equipa de Ottawa desenvolveu uma terapia peptídica criada para prender o metilglioxal antes que ele danifique as células.
“Esta terapia será testada em breve para ver se pode proteger o cérebro de danos após um infarto”, afirmou o Dr. Suuronen.
Ainda há questões em aberto
O estudo também tem limitações. Os investigadores não mediram alterações comportamentais nem de memória a longo prazo nos camundongos; por isso, ainda não é possível provar que o MG cause diretamente demência ou depressão após um infarto.
Mesmo assim, os resultados evidenciam uma ligação marcante entre coração e cérebro. Um coração lesionado parece capaz de enviar sinais químicos prejudiciais ao cérebro, desencadeando inflamação em áreas relacionadas à cognição e à saúde emocional.
“Dado o risco aumentado de novos infartos ou morte em pacientes com infarto que apresentam depressão ou ansiedade, conseguir aliviar essas condições poderia reduzir eventos cardíacos maiores subsequentes e melhorar a vida de inúmeros pacientes”, concluiu o Dr. Suuronen.
Para milhões de pessoas que sobrevivem a um infarto em todo o mundo, a descoberta pode alterar a forma como a recuperação é encarada. Cuidar apenas do coração talvez não baste: o cérebro também pode precisar de proteção.
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