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Células-tronco e o futuro do tratamento do diabetes tipo 1

Cientista em jaleco segurando amostra em laboratório enquanto mulher observa ao fundo.

Os seres humanos têm cerca de 30 trilhões de células no corpo quando chegam à vida adulta. O mais impressionante é que cada uma dessas células surgiu a partir de um pequeno grupo de aproximadamente 100 células-tronco nos primeiros dias do desenvolvimento.

A capacidade dessas células-tronco embrionárias de dar origem a qualquer tipo celular faz com que sejam pluripotentes - uma característica que cientistas vêm aproveitando hoje tanto na pesquisa quanto na medicina.

O uso de células-tronco embrionárias humanas em pesquisa começou em 1998, quando alguns embriões humanos foram doados por casais que estavam a passar por fertilização in vitro.

A partir desses embriões, os cientistas conseguiram criar um stock praticamente ilimitado de células pluripotentes.

Quase 30 anos depois, essas linhagens de células-tronco embrionárias continuam a ser usadas em muitos laboratórios de pesquisa.

Outro marco importante na área ocorreu em 2007, quando dois laboratórios - um liderado por Shinya Yamanaka, na Universidade de Kyoto, no Japão, e outro por James Thomson, na Universidade de Wisconsin–Madison, nos Estados Unidos - publicaram, de forma independente, artigos descrevendo como reprogramaram células maduras (como células da pele) para voltarem a um estado pluripotente semelhante ao de células-tronco.

Essas células são chamadas de células-tronco pluripotentes induzidas. O principal benefício é que elas carregam o DNA do próprio indivíduo, o que permite modelos de doença e terapias mais personalizados.

Como as células-tronco podem ser usadas no tratamento do diabetes?

No nosso laboratório, usamos células-tronco embrionárias para produzir células beta produtoras de insulina - o tipo de célula destruído pelo sistema imunológico em pessoas com diabetes tipo 1.

Quando essas células beta produtoras de insulina se perdem, os pacientes passam a depender de injeções de insulina para controlar a glicose no sangue e evitar complicações graves, como lesões em vasos sanguíneos e danos nos nervos.

A terapia com insulina não elimina o peso emocional de conviver com o diabetes tipo 1. Além disso, ela não substitui completamente a função dinâmica das células beta do próprio corpo; por isso, muitas pessoas com diabetes tipo 1 ainda enfrentam problemas de saúde a longo prazo.

Para contornar isso, pesquisadores estão a produzir, em laboratório, células beta derivadas de células-tronco, com o objetivo de recuperar a capacidade do organismo de fabricar insulina.

Ensaios clínicos recentes trouxeram resultados promissores ao transplantar essas células em indivíduos com diabetes tipo 1:

  • A Vertex Pharmaceuticals transplantou células beta derivadas de células-tronco embrionárias em 12 pacientes com diabetes tipo 1, e 10 (83 por cento) conseguiram interromper as injeções de insulina em até seis meses.
  • Uma equipa de pesquisa da China reprogramou células de gordura de um paciente com diabetes tipo 1 para gerar células-tronco pluripotentes induzidas; em seguida, transformou essas células em células beta e as transplantou sob o músculo abdominal do paciente. De forma notável, o receptor tornou-se independente de insulina 75 dias após a cirurgia e manteve-se assim por pelo menos 12 meses.

Esses primeiros estudos indicam que células beta derivadas de células-tronco podem sobreviver, amadurecer e funcionar depois de transplantadas em pacientes.

Mesmo assim, ainda existem obstáculos importantes: garantir que as células se diferenciem totalmente no tipo celular desejado, fabricar células com segurança e eficiência em grande escala e evitar a rejeição imunológica.

Como as células-tronco podem evitar a rejeição imunológica?

As células cultivadas em laboratório têm genética diferente da do paciente; por isso, o sistema imunológico pode atacar o transplante como algo "não próprio".

Para resolver esse problema, pesquisadores e médicos esperam usar células-tronco pluripotentes induzidas que carreguem o DNA do próprio paciente.

No entanto, mesmo células "derivadas do próprio indivíduo" podem comportar-se de modo imprevisível após meses de reprogramação e crescimento em laboratório - o que mantém a rejeição imunológica como um risco.

Além disso, em doenças como o diabetes tipo 1, as células podem continuar a ser destruídas pela mesma resposta autoimune que desencadeou a condição desde o início.

Embora medicamentos imunossupressores sejam usados atualmente para evitar a rejeição, eles trazem riscos sérios que, para a maioria dos pacientes, superam os benefícios.

Por isso, a pesquisa tem avançado em estratégias para impedir a rejeição sem recorrer a imunossupressores, como o uso de cápsulas protetoras que isolam as células transplantadas ou a introdução de alterações genéticas que ajudem as células a "se esconderem" do sistema imunológico.

A promessa de células geneticamente modificadas com escape imunológico foi demonstrada recentemente num estudo de 2025, no qual pesquisadores transplantaram células com edição genética em um paciente com diabetes tipo 1 sem utilizar qualquer medicamento imunossupressor.

De forma notável, o paciente não apresentou resposta imune contra as células transplantadas, que sobreviveram, secretaram insulina e melhoraram o controlo da glicose no sangue ao longo de 12 semanas.

Esse avanço reforça o potencial de terapias celulares com evasão imunológica para superar um dos maiores desafios da medicina regenerativa.

O caminho adiante

As células-tronco representam um conjunto de ferramentas extraordinário para a ciência e para a medicina.

Pesquisadores estão cada vez melhores em orientar essas células pluripotentes para formar tecidos especializados, e os primeiros ensaios clínicos bem-sucedidos já são uma realidade.

Ainda assim, essas terapias permanecem experimentais e não foram aprovadas pela Saúde do Canadá nem pela agência reguladora de medicamentos e alimentos dos Estados Unidos (FDA).

Pacientes devem ter cautela com terapias com células-tronco não aprovadas e consultar sempre um profissional de saúde antes de entrar em ensaios clínicos autorizados.

Os avanços obtidos até aqui alimentam uma esperança concreta de que futuras terapias com células-tronco possam melhorar a vida de pessoas que convivem com doenças crónicas.

Bailey Laforest, doutorando em Biologia, Carleton University, e Jennifer Bruin, professora associada, Departamento de Biologia e Instituto de Bioquímica, Carleton University

Este artigo foi republicado do The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.

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