O argumento a favor do uso da psilocibina em saúde mental não para de ganhar força. Ensaios clínicos com pessoas indicam que ela pode aliviar depressão, ansiedade e aquele tipo de sofrimento existencial que medicamentos convencionais raramente conseguem atingir.
O que ainda faltava na literatura era uma demonstração direta, num experimento controlado com animais, de que a substância poderia reduzir agressividade. Isso acabou de mudar.
E o animal que ajudou a esclarecer a questão não foi um rato nem um camundongo. Foi um peixe de manguezal menor do que o seu polegar, escolhido justamente porque não consegue parar de arrumar briga.
Um brigão por natureza
A espécie é o rivulus de mangue, um killifish do tamanho de um polegar encontrado em litorais quentes do Caribe e da América Central.
Ele aguenta condições difíceis, em água salgada e hostil, e consegue respirar pela pele quando fica preso em terra. Também é briguento - sobretudo com indivíduos desconhecidos da própria espécie.
Foi exatamente essa agressividade espontânea que levou a Dra. Suzanne Currie, da Universidade da Colúmbia Britânica (UBC), a escolhê-lo como organismo de estudo.
Currie e seus colegas buscavam uma espécie em que o comportamento de base oferecesse algo claro para quantificar. Esse peixe ainda tem outra característica incomum: ele se autofecunda.
Em uma colônia de laboratório, gerações sucessivas de autofecundação formam linhagens em que cada indivíduo, dentro de uma mesma linhagem, é essencialmente um clone genético dos demais.
Com esse arranjo, a equipa conseguiu testar se a psilocibina teria o mesmo efeito em animais com ADN idêntico - ou se o histórico genético seria determinante para o resultado.
Detalhes do experimento
Antes de cada teste, um peixe permanecia por 20 minutos sozinho num pequeno aquário de vidro, em água salgada comum ou em água salgada com psilocibina.
Depois dessa exposição, o mesmo peixe era colocado diante de um desconhecido de tamanho equivalente, porém de outra linhagem, separados por uma divisória de tela fina. A barreira permitia que os dois se vissem e se cheirassem, mas impedia qualquer contacto físico.
Por 15 minutos, os pesquisadores registaram cada disparo, exibição e deslocamento ao longo da divisória.
Em seguida, compararam o que cada indivíduo fez antes do tratamento com o que ele fez 24 horas depois, sob a ação da droga.
Em relação aos controlos, os peixes expostos à psilocibina se movimentaram menos e investiram menos contra outros peixes próximos.
Menos sinais de hostilidade
As “explosões” de nado - investidas rápidas dirigidas à tela que separava os animais - são o sinal mais evidente de hostilidade nessa espécie. Com a psilocibina, essas investidas diminuíram de forma significativa.
A atividade geral também caiu. Os peixes tratados passaram significativamente menos tempo em movimento do que os mesmos indivíduos no dia anterior.
Já o grupo controlo, mantido apenas em água comum, não apresentou queda equivalente, o que afasta a hipótese de cansaço ou de simples familiaridade com o aquário.
Calma sem sedação
Se fosse um sedativo “grosseiro”, o efeito seria o apagamento de tudo - mas não foi isso que ocorreu.
Mesmo tratados, os peixes continuaram a orientar-se para o desconhecido, continuaram a circular pela zona próxima à barreira e ainda exibiram as posturas usadas para “avaliar” o oponente.
O que diminuiu foram os comportamentos mais claramente agressivos. Eles seguiram envolvidos na interação, mas deixaram de atacar.
Um trabalho anterior com peixe-zebra, publicado em outro artigo, já sugeria efeitos relacionados, embora não especificamente sobre agressividade.
Aqui está o ponto que os autores destacam como novidade: ninguém havia demonstrado, antes, que a psilocibina reduz agressividade em qualquer animal - e, neste caso, isso ocorreu sem apagar o interesse social normal.
Um efeito calmante consistente
Como cada linhagem é geneticamente uniforme, a equipa esperava respostas parecidas entre indivíduos. Só que não foi o que se viu.
Alguns peixes tratados ficaram visivelmente mais calmos, enquanto outros quase não mudaram. O genótipo não previu o tamanho da resposta.
A explicação provavelmente está fora do genoma: em como a vida de cada peixe se desenrolou, e não apenas em quais genes ele carrega.
Ainda assim, o efeito calmante apareceu apesar dessa variação. Esse tipo de robustez é o que clínicos querem ver antes de levar um composto para testes em humanos.
Comparação com doses humanas de psilocibina
Os pesquisadores também confirmaram que os peixes absorveram a substância, embora as concentrações internas, em cada animal, tenham permanecido baixas.
Os valores ficaram na mesma faixa do que circula no sangue de uma pessoa após uma dose de 15 miligramas - o tipo de dose usada em estudos clínicos para depressão.
Essa semelhança não prova que a droga aja do mesmo modo em peixes e humanos. Mas sugere que as mudanças comportamentais não foram apenas uma reação tóxica a uma carga química esmagadora.
Isso não é uma prova sólida. Ainda assim, indica que a dose usada nos peixes se encaixa na mesma faixa biológica das doses que vêm ajudando pessoas em estudos clínicos.
A psilocibina é muito parecida com a serotonina, um químico do cérebro que ajuda a regular o humor.
Em mamíferos, ambas se ligam aos mesmos recetores cerebrais, e os pesquisadores consideram provável que algo semelhante esteja a acontecer aqui.
Essa sobreposição é, hoje, a principal hipótese para explicar como surge o efeito calmante observado nos peixes.
Novas portas na ciência
Até este artigo, a associação entre psilocibina e redução de agressividade só era suspeitada a partir de resultados dispersos em roedores, sem demonstração clara.
O rivulus de mangue ofereceu aos pesquisadores uma ferramenta que não existia antes - criando uma abertura prática para estudos em saúde mental.
Quadros em que agressividade e impulsividade destroem a vida dos pacientes são difíceis de modelar em animais. Muitos modelos de laboratório simplesmente não são agressivos o suficiente já de partida.
Um peixe naturalmente combativo, que se acalma com uma única dose baixa, entrega aos pesquisadores algo que modelos padrão - como camundongos, ratos e peixe-zebra - não conseguiam oferecer.
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