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Medicamento antigo contra a doença do sono mostra potencial na síndrome de Bachmann-Bupp

Criança sorrindo interage com mãe em consultório médico com doutor observando ao fundo.

Um medicamento antigo contra a doença do sono mostrou potencial para melhorar o tônus muscular, o desenvolvimento e o crescimento de cabelo em pessoas com uma condição genética rara chamada síndrome de Bachmann-Bupp.

Quase esquecido, esse remédio ganhou um novo papel como alternativa terapêutica para algumas famílias que, até então, tinham poucas possibilidades além do diagnóstico.

Um diagnóstico levou a um avanço

Para uma criança de Michigan, a síndrome de Bachmann-Bupp (BABS) surgiu como um diagnóstico devastador em meio a um enigma genético. Depois, de forma inesperada, a família recebeu a chance de seguir um possível caminho de tratamento.

Ao relacionar os sinais clínicos da criança ao gene defeituoso, o Dr. Caleb Bupp, da Corewell Health, ajudou a registrar em quais pontos o distúrbio provocava danos.

Com isso, a equipe conseguiu sair do diagnóstico e chegar ao tratamento em 16 meses e, em seguida, medicou mais cinco pacientes, com resultados iniciais encorajadores.

Essas melhoras precoces não significam cura, mas tornam urgente a próxima etapa: avaliar o medicamento de maneira rigorosa e justa.

Associando o medicamento ao mecanismo

O fármaco em questão é a eflornitina, também chamada de difluorometilornitina (DFMO), um medicamento que inibe uma enzima com atividade excessiva.

Em condições normais, a ornitina descarboxilase - a enzima bloqueada pela DFMO - ajuda as células a produzirem substâncias ligadas ao crescimento a partir de blocos de construção das proteínas.

Na doença, ocorre uma mutação de ganho de função: uma alteração genética que intensifica demais a atividade. Com isso, a enzima passa a funcionar “acelerada”.

Ao reduzir essa atividade, a DFMO diminui o excesso de putrescina, uma substância celular associada ao crescimento, o que pode aliviar sintomas que aparecem mais adiante na cadeia biológica.

Famílias percebem melhoras visíveis

Para as famílias, as mudanças mais perceptíveis apareceram no movimento do dia a dia, no desenvolvimento e no retorno do crescimento de cabelo em seus familiares.

Profissionais de saúde relataram tônus muscular mais estável, novos marcos do desenvolvimento e recuperação de cabelo em pacientes tratados, embora o momento e a intensidade variassem.

Esse ponto é relevante porque um grupo pequeno de pessoas tratadas não permite concluir se idade, variante genética ou sintomas de base influenciaram cada resposta.

Ainda assim, esses ganhos observáveis podem ajudar famílias e médicos a definirem metas práticas enquanto evidências mais robustas são construídas.

Poucos casos atrasam o avanço

A raridade, por si só, virou o principal obstáculo para chegar a uma resposta clara sobre o medicamento. A BABS tem cerca de 20 pacientes diagnosticados no mundo, número insuficiente para os grandes ensaios clínicos que normalmente são exigidos para confirmar alegações de tratamento.

Um relatório federal de 2024 apontou que quase 1 em cada 10 norte-americanos convive com uma doença rara, mas apenas cerca de 5% das doenças raras têm tratamentos aprovados.

Nesse cenário, cada novo diagnóstico pode fortalecer a base de evidências; por outro lado, cada diagnóstico que não acontece torna o caminho adiante mais lento.

Caminhos regulatórios influenciam o acesso

Nos Estados Unidos, a Food and Drug Administration (FDA) autorizou que cinco pacientes com BABS recebessem DFMO por meio de pedidos de acesso individual.

Um protocolo investigacional para um único paciente - uma autorização de tratamento individual - permite que médicos utilizem um medicamento antes de haver aprovação mais ampla para aquela doença.

Em 2023, houve aprovação da FDA para outro uso: quando a eflornitina oral reduziu o risco de recaída em neuroblastoma de alto risco, um câncer de células nervosas em crianças.

Esse exemplo, porém, foi um caso à parte e não substitui a comprovação de que pacientes com BABS se beneficiem do tratamento.

Um medicamento conhecido em um novo cenário

Parte do interesse pela DFMO vem de um aspecto direto: médicos já têm muito mais informações sobre ela do que teriam sobre um remédio totalmente novo.

Antes, ela foi usada contra a doença do sono na África Ocidental - uma infecção parasitária transmitida pela mosca tsé-tsé -, além de ter sido empregada para reduzir pelos faciais indesejados e para evitar recaída de neuroblastoma.

Esse histórico oferece aos pesquisadores pistas de dosagem, efeitos adversos já conhecidos e experiência de segurança em crianças que precisam de tratamentos prolongados.

Mesmo assim, o reposicionamento de fármacos - usar medicamentos aprovados em novas doenças - só funciona quando as evidências realmente se encaixam na biologia do novo problema.

Parcerias aceleram a pesquisa

Uma colaboração mais ampla agora busca transformar relatos isolados de pacientes em evidências que médicos e órgãos reguladores possam avaliar.

Pesquisadores da Michigan State University College of Human Medicine (MSU) acrescentam experiência adicional de laboratório ao estudo.

A Every Cure, um grupo de biotecnologia sem fins lucrativos que procura novos usos para medicamentos já aprovados, contribui com apoio de planeamento enquanto pesquisadores da MSU testam as evidências.

“Eles estão abrindo portas que nunca teríamos conseguido destrancar”, disse Bupp.

Limitações aparecem nos testes iniciais

Cientistas da MSU e da Corewell ainda precisam resolver outra questão, diferente de apenas verificar se a DFMO ajuda os casos mais diretos.

Orientações de diagnóstico alertam que uma alteração incerta no gene ODC1 - a instrução de DNA para a enzima - não confirma nem descarta a BABS.

Em uma criança descrita em relato com uma variante incomum, a atividade da enzima não aumentou acima das amostras de controlo.

Isso é importante porque a DFMO atua justamente sobre a atividade enzimática excessiva; portanto, o medicamento pode não ser adequado para toda criança com mudanças no ODC1.

Via biológica compartilhada entre doenças

A mesma via química pode ter relevância além da BABS, já que as células utilizam poliaminas - pequenas substâncias que ajudam as células a crescer e a se dividir - em muitas funções essenciais.

Quando genes dessa via falham, crianças podem desenvolver condições aparentadas, com problemas de movimento, crescimento, cérebro ou ossos.

A DFMO não será indicada para todas elas, mas a experiência com BABS oferece aos pesquisadores uma forma de testar o mecanismo antes de fazer afirmações mais fortes.

Para famílias afetadas por doenças raras, isso é crucial: mesmo um tratamento plausível precisa atingir o alvo certo.

Promessa moderada pela incerteza

Um medicamento antigo passou a conectar diagnóstico, biologia, acesso ao tratamento e a urgência das famílias de um modo que poucas histórias de doenças raras conseguem reunir.

A próxima fase de pesquisa precisa esclarecer quem tende a se beneficiar, quão cedo o tratamento deve começar e quais sinais indicam uma mudança duradoura.

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