Depois de séculos a mapear o corpo humano com um nível de detalhe cada vez maior, a ciência continua a surpreender. Em pleno 2025, uma estrutura celular até então desconhecida - e possivelmente essencial para a nossa saúde - acaba de entrar para os livros de anatomia.
Trata-se de uma organela envolta por membrana que parece ter um papel enorme na forma como as células organizam, descartam e reaproveitam o que existe no seu interior. Ela recebeu o nome de hemifusoma, e uma equipa de investigadores afirma que a descoberta pode abrir novas pistas sobre doenças.
"Isto é como descobrir um novo centro de reciclagem dentro da célula", disse a biofísica Seham Ebrahim, da Universidade da Virgínia. "Achamos que o hemifusoma ajuda a controlar como as células embalam e processam material e, quando isso dá errado, pode contribuir para doenças que afetam muitos sistemas do corpo."
Além disso, o achado ajuda a esclarecer melhor a renovação e o tráfego de compostos indispensáveis para manter em funcionamento a nossa maquinaria celular.
Como a tomografia eletrónica criogênica (cryoET) tornou a descoberta possível
Células como as que compõem o corpo humano são extremamente complexas, o que torna difícil separar e identificar as estruturas finas responsáveis por tantos processos. Mesmo com tecnologias muito sensíveis, como a microscopia eletrónica, as amostras precisam ficar num ambiente de vácuo - algo que costuma danificar e distorcer materiais biológicos.
Nos últimos anos, porém, surgiu uma abordagem capaz de examinar amostras biológicas em três dimensões com um nível de detalhe que chega quase à escala atómica.
Essa técnica é a tomografia eletrónica criogênica, ou cryoET. Nela, as amostras são congeladas num meio criogênico de forma tão rápida que não dá tempo de se formarem cristais de gelo capazes de destruir o tecido delicado; em seguida, os cientistas analisam o material com alta resolução, fazendo um feixe de eletrões atravessar a amostra para obter uma série de imagens bidimensionais.
Depois, essas “fatias” em 2D são combinadas para gerar uma reconstrução em 3D do espécime, detalhada o suficiente para revelar, em alta resolução, a estrutura interna de células e moléculas.
Hemifusoma e vesículas: o que a equipa observou nas células
Foi com essa técnica que os investigadores examinaram diferentes tipos de tecido de mamíferos - macaco, humano, rato e camundongo. Nos quatro tipos celulares analisados, encontraram múltiplos sacos que facilitam a formação de pares de vesículas separados por uma parede chamada diafragma de hemifusão.
Segundo os autores, essas vesículas funcionam um pouco como recipientes de triagem.
"Pode pensar nas vesículas como pequenos camiões de entrega dentro da célula", explica Ebrahim. "O hemifusoma é como uma doca de carga onde elas se conectam e transferem a mercadoria. É uma etapa do processo cuja existência nós não conhecíamos."
O que ainda falta entender sobre o hemifusoma e a relação com doenças
A equipa também fez experiências com nanopartículas de ouro e células humanas cultivadas para verificar se a forma como os hemifusomas capturam materiais do ambiente ao redor se assemelha ao que já foi observado noutras células. Curiosamente, tudo indica que os hemifusomas se comportam de forma diferente.
Ainda será necessário investigar melhor o que exatamente essa organela faz, de que maneira realiza as suas funções e como se encaixa no panorama mais amplo da maquinaria celular.
Estudos futuros também podem esclarecer o papel dos hemifusomas em doenças, já que a incapacidade de processar corretamente a “carga” celular pode causar prejuízos importantes à saúde.
"Estamos só a começar a entender como esta nova organela se encaixa no quadro maior da saúde celular e da doença. É empolgante porque encontrar algo realmente novo dentro das células é raro - e isso abre um caminho totalmente novo para explorar", diz Ebrahim.
"Agora que sabemos que os hemifusomas existem, podemos começar a perguntar como eles se comportam em células saudáveis e o que acontece quando algo sai do lugar. Isso pode levar a novas estratégias para tratar doenças genéticas complexas."
A investigação foi publicada na Nature Communications.
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