Bebidas energéticas movimentam uma fortuna. Vendidas como soluções rápidas para cansaço e quedas de rendimento, elas fazem muito sucesso entre jovens, atletas, praticantes de desporto e os chamados "guerreiros de fim de semana" - pessoas que concentram os treinos no sábado e no domingo em vez de manter uma rotina regular. Nos últimos anos, jogadores também passaram a ser um público-alvo importante.
Só que, à medida que o mercado cresce, aumentam também as dúvidas sobre o que de facto existe nessas bebidas - e sobre o que esses ingredientes podem estar a provocar no nosso organismo.
O que há nas bebidas energéticas: cafeína, guaraná e taurina
Muitas bebidas energéticas reúnem uma combinação de três estimulantes bastante conhecidos: cafeína, presente naturalmente em café, chá e cacau; guaraná, uma planta amazónica rica em cafeína; e taurina, um aminoácido que ocorre naturalmente e pode ser encontrado, por exemplo, em vieiras, mexilhões, peru e frango.
Entre esses componentes, a taurina, em especial, tem gerado tanto entusiasmo quanto expectativa. Costuma ser associada a melhora de desempenho e a possíveis benefícios para a saúde. No entanto, investigações recentes estão a levantar questões relevantes sobre o comportamento da taurina no corpo - e sobre em que situações ela pode acabar a fazer mais mal do que bem.
O que o estudo da Nature (maio de 2025) sugeriu sobre leucemia
Em maio de 2025, um estudo publicado na Nature gerou manchetes e preocupação na mesma proporção. A pesquisa apontou que a taurina pode favorecer a progressão da leucemia, um grupo de cancros do sangue que têm origem na medula óssea.
Os autores observaram que, enquanto as células saudáveis da medula óssea produzem taurina naturalmente, as células de leucemia não conseguem produzi-la. Ainda assim, essas células conseguem absorver taurina do ambiente ao redor e utilizá-la como fonte de energia para crescer e multiplicar-se.
Em estudos com ratos e em amostras de células humanas de leucemia, foi demonstrado que a taurina presente no microambiente tumoral - a região em torno de um tumor que inclui vasos sanguíneos, células do sistema imunitário e estruturas de suporte - acelerou a progressão da leucemia.
O ponto mais importante é que, quando os investigadores impediram a captação de taurina pelas células leucémicas (por meio de técnicas genéticas), a progressão do cancro diminuiu de forma significativa. Os autores indicam que suplementos de taurina poderiam, potencialmente, piorar os desfechos em pessoas com leucemia e sugerem que desenvolver formas direcionadas de bloquear a entrada de taurina nas células cancerígenas pode representar uma nova estratégia terapêutica.
Taurina: aliada ou inimiga?
A taurina está entre os aminoácidos livres mais abundantes no corpo humano, com concentrações particularmente elevadas no coração, nos músculos e no cérebro. Em pessoas saudáveis, ela é obtida sobretudo pela alimentação, embora o organismo também consiga sintetizá-la a partir dos aminoácidos metionina e cisteína - desde que haja vitamina B6 suficiente, presente em alimentos como salmão, atum, frango, bananas e leite.
Em geral, quem segue uma dieta ocidental típica consome entre 40mg–400mg de taurina por dia apenas a partir de alimentos. Esse valor diz respeito somente à taurina ingerida diretamente, sem contabilizar a quantidade adicional que o corpo pode produzir internamente - o que pode variar conforme idade, dieta e estado de saúde.
A taurina aparece na base de dados "geralmente reconhecido como seguro" (GRAS) da Administração de Alimentos e Medicamentos (FDA). Além disso, segundo a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA), é seguro consumir até seis gramas por dia. Para comparação, uma porção de Red Bull ou Monster tem cerca de um grama - bem abaixo desse limite.
Apesar das preocupações recentes sobre uma possível ligação com a progressão de cancros do sangue, a taurina não é, por si só, uma substância inerentemente nociva. Na prática, há quem possa beneficiar-se de suplementação, sobretudo pessoas em nutrição parenteral prolongada, situação em que os nutrientes são administrados diretamente na corrente sanguínea porque o intestino não está a funcionar adequadamente.
Pessoas com insuficiência crónica do fígado, dos rins ou do coração também podem ter dificuldade em produzir taurina em quantidade suficiente - ou em mantê-la no organismo -, o que torna a suplementação útil em contextos clínicos específicos.
De forma irónica, alguns estudos indicam que a taurina pode ajudar a reduzir efeitos secundários da quimioterapia em pacientes com leucemia - ao mesmo tempo que pesquisas emergentes levantam a hipótese de que ela também possa alimentar a doença.
Essa aparente incompatibilidade reforça o quanto o contexto é determinante: o efeito da taurina depende não apenas da dose e da forma de consumo, mas também da condição de saúde de base do paciente. O que é benéfico numa situação pode ser prejudicial noutra.
Mas há um detalhe importante: usar taurina como suplemento por motivos específicos de saúde não é a mesma coisa que ingerir grandes quantidades por meio de bebidas energéticas, que frequentemente juntam taurina a níveis elevados de cafeína e açúcar.
Essa combinação pode sobrecarregar o coração, atrapalhar o sono e aumentar o risco de efeitos adversos, sobretudo em pessoas com problemas de saúde já existentes ou que utilizem outros estimulantes.
As evidências mais recentes colocam em pauta se produtos com muita taurina podem ser prejudiciais em alguns casos, especialmente para quem tem - ou apresenta risco de ter - cancros do sangue.
Então, é para se preocupar?
Com base no que se sabe hoje, um adulto saudável que bebe uma bebida energética de vez em quando tem pouco motivo para alarme. Ainda assim, o ideal é manter moderação.
Consumir várias bebidas com alta taurina todos os dias, ou tomar suplementos de taurina (sem orientação profissional), somando isso a uma alimentação rica em taurina, pode não ser uma escolha prudente - principalmente se estudos futuros confirmarem associações entre taurina e progressão do cancro.
Enquanto não houver mais clareza, a opção mais segura é procurar esse impulso de energia por meio de uma alimentação nutritiva, em vez de recorrer a bebidas energéticas. Se você tem alguma condição de saúde pré-existente - ou histórico familiar de cancro -, o mais indicado é procurar um profissional de saúde antes de iniciar suplementação de taurina ou aumentar o consumo de bebidas energéticas.
Gulshanara (Rumy) Begum, Professora Sénior de Nutrição e Ciência do Exercício, University of Westminster
Este artigo foi republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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