O padre português Marcelo Oliveira, que está em missão na República Democrática do Congo (RDCongo), afirmou em declarações à Lusa que parte da população congolesa encara a epidemia de ebola com descrença, o que acaba facilitando a transmissão, já que as orientações de saúde pública não são seguidas.
Ceticismo diante do ebola na RDCongo e o impacto nas medidas sanitárias
Por telefone, Marcelo Oliveira resumiu a dificuldade no terreno: "A população é muito cética a toda esta realidade e não respeita as medidas (...), o que faz com que a epidemia se propague".
Entre os cuidados que, segundo ele, vêm sendo desconsiderados, está o procedimento de manejo e sepultamento dos corpos, que precisa ser feito de forma adequada por causa do risco de disseminação da doença.
Funerais, contato com vítimas e o risco de contágio
O missionário explicou que, em muitos casos, a família é impedida de ter acesso ao corpo durante surtos de ebola, justamente por se tratar de um foco de contágio. Como isso entra em choque com costumes locais, cresce a resistência às regras sanitárias. Nas palavras do padre: "Em África, não ver o corpo do morto é algo de inaceitável, mas nas epidemias de ébola o corpo não pode ser dado à família porque é altamente contagioso".
Violência em Ituri e deslocamentos que espalham a doença
Esse padrão de comportamento, observou, está por trás de episódios de tensão como o ataque a um centro de tratamento de ebola em Ituri, no leste da RDCongo. De acordo com o relato, moradores revoltados incendiaram as instalações depois de serem impedidos de retirar um corpo para realizar o funeral.
O comboniano também advertiu que, movidas pela mesma descrença e recusa em acatar recomendações, muitas pessoas continuam se deslocando entre localidades, "acabando por espalhar as doenças".
Ele acrescentou que essa rejeição às orientações médicas é alimentada, em parte, pela ideia de que existiriam interesses financeiros por trás das crises, como se "criam doenças para se conseguir obter fundos".
Diante desse contexto, mesmo com os avisos da Organização Mundial da Saúde (OMS), o padre avaliou que a tomada de consciência tende a acontecer tarde: "é preciso que morra muita gente, que haja gente que desapareça em grande quantidade, para que [as pessoas] possam depois tomar consciência".
Igreja, desconfiança social e alertas da OMS
Marcelo Oliveira disse ainda que a Igreja, "diante de todas estas realidades", procura permanecer presente "ao lado do povo", reforçando que é "preciso tomar medidas e precauções" para conter a doença. Ele ponderou, porém, que essa orientação encontra barreiras porque *a população está de tal modo massacrada com promessas, com mentiras, (...) que vive um pouco desconfiada de tudo *aquilo que vem sendo noticiado".
Este é o 17.º episódio de ebola no país e, desta vez, ainda não existe vacina para a variante identificada, a Bundibugyo.
O padre português destacou também que o Ruanda já fechou as fronteiras com a RDCongo - país vizinho de Angola. Já no Uganda - destino frequente de moradores do leste da RDCongo em busca de produtos, por ser mais próximo do que a capital, Kinshasa -, estão apenas a ser tomadas medidas de prevenção na fronteira, como a verificação de temperatura.
Marcelo Oliveira já havia chamado atenção, em uma mensagem direcionada à Fundação AIS - entidade que em 2025 financiou 258 projetos no país -, para o fato de que a crise no leste da RDCongo atinge repetidamente as populações mais pobres, que além de viverem em meio a guerra e conflitos, agora enfrentam também uma nova epidemia de ebola.
A OMS informou, nesta sexta-feira, que o risco da epidemia de ebola na RDCongo foi reclassificado de "elevado" para "muito elevado", o nível máximo de alerta, enquanto os riscos em âmbito regional permanecem sem mudanças.
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