Há mais de um século, receber um diagnóstico de diabetes tipo 1 significava, na prática, conviver para sempre com a aplicação de insulina.
Pela primeira vez, porém, a ciência começa a quebrar esse padrão - não apenas controlando a doença, e sim tentando interrompê-la antes mesmo do aparecimento de qualquer sintoma.
No Reino Unido, os primeiros pacientes já estão a iniciar uma nova terapia, o teplizumabe. Ao mesmo tempo, avançam os esforços para descobrir, com antecedência, quem pode beneficiar de um medicamento que só funciona quando administrado antes do início dos sintomas.
No Royal Devon NHS, a equipa está a tratar a primeira adulta no Reino Unido a receber o teplizumabe: Hannah Robinson, identificada com diabetes tipo 1 em fase inicial por acaso, durante exames de rotina do pré-natal.
Por que a diabetes tipo 1 ainda exige insulina
Cerca de 10% das pessoas com diabetes têm diabetes tipo 1. Os outros 90% vivem com diabetes tipo 2, condição associada a fatores de estilo de vida em que o organismo ainda produz insulina, mas ela não atua como deveria.
A diabetes tipo 1 é uma doença autoimune que acaba por levar à perda total da produção de insulina pelo pâncreas. Sem insulina, a glicose no sangue pode subir a níveis perigosos, aumentando o risco de cegueira, insuficiência renal e morte precoce.
Apesar de muitas pessoas associarem a diabetes tipo 1 à infância, estudos da Universidade de Exeter chamaram a atenção para um dado importante: mais de metade dos novos casos surge em adultos.
Para milhões de pessoas no mundo, manter a glicose sob controlo na diabetes tipo 1 continua a significar insulina diária, pelo resto da vida. Mas a própria insulinoterapia traz riscos.
Quando a glicose cai demais, pode ocorrer hipoglicemia - as chamadas "hipos" - que, em situações graves, podem provocar convulsões e até morte. Não surpreende que viver permanentemente a equilibrar níveis altos e baixos de glicose pese tanto no corpo quanto na saúde mental. Na gravidez, Robinson precisou usar insulina e sentiu na pele como "a vida gira completamente em torno de equilibrar a glicose no sangue".
Teplizumabe e diabetes tipo 1: atacar a causa imune
O teplizumabe propõe uma lógica diferente. Em vez de apenas substituir a insulina que falta, ele tenta interferir no ataque imune que dá origem à diabetes tipo 1.
Em geral, o sistema imunitário é extremamente eficaz em distinguir o que é do próprio corpo do que é ameaça, defendendo-nos de infeções e de cancro sem agredir os nossos órgãos. Em certas situações, por motivos que ainda não são totalmente claros, esse equilíbrio falha - um processo conhecido como autoimunidade.
Na diabetes tipo 1, o sistema imunitário ataca por engano o pâncreas e destrói as células responsáveis por produzir insulina.
O teplizumabe atua ao “reeducar” o sistema imunitário, reduzindo a atividade das células específicas que têm como alvo o pâncreas. Estudos indicam que ele consegue adiar a doença e a necessidade de insulinoterapia por dois a três anos, com efeitos adversos, em geral, leves.
Para Robinson - que conhece bem, pela experiência da gravidez e pelo trabalho em tempo integral que é viver com diabetes tipo 1 - a perspetiva de ganhar alguns anos sem insulina fez diferença.
O medicamento já foi aprovado nos Estados Unidos e está em avaliação para uso rotineiro no NHS, embora algumas crianças e adolescentes no Reino Unido também o tenham recebido por meio de programas de acesso especial.
Identificar pessoas precocemente
Há um ponto crítico. Quando começam os sintomas típicos da diabetes tipo 1, como sede intensa, perda de peso e fadiga, mais de três quartos da capacidade de produzir insulina já foi destruída.
Para que o teplizumabe - e terapias semelhantes - tenha efeito, é preciso aplicá-lo antes que os sintomas apareçam, enquanto a glicose no sangue ainda se mantém normal. Isso significa que esses tratamentos não servem para quem já tem diabetes tipo 1 estabelecida.
Como, então, encontrar pessoas nessa fase inicial? A boa notícia é que dá para detetar o início do ataque autoimune muitos anos antes dos sintomas por meio de exames de sangue simples, que medem marcadores imunes chamados autoanticorpos pancreáticos.
Algumas gotas de sangue obtidas com uma picada no dedo podem mostrar se o sistema imunitário já começou a mirar o pâncreas. Descobrir cedo não só abre a possibilidade de atrasar a progressão, como também ajuda a evitar emergências potencialmente fatais que às vezes acompanham o primeiro diagnóstico - como a cetoacidose diabética.
Quem testar: risco genético e rastreamento
Com a diabetes tipo 1 a atingir aproximadamente uma em cada 200 pessoas, surge a questão prática: quem deve ser testado? O risco não é igual para toda a população. Ao falar em doenças hereditárias, é comum imaginar condições determinadas por uma única alteração genética, como a fibrose quística.
Na diabetes tipo 1, existe componente genético, mas ele depende de muitos genes diferentes, cada um contribuindo para aumentar ou reduzir um pouco a probabilidade individual. Ainda assim, a predisposição genética, isoladamente, não basta: fatores ambientais desconhecidos também parecem ser necessários para desequilibrar a balança.
Além disso, nove em cada dez pessoas que desenvolvem diabetes tipo 1 não têm histórico familiar. Embora testar familiares de quem já tem a doença seja um primeiro passo natural, pesquisas na Universidade de Exeter sugerem que reunir todos esses fatores genéticos num único escore de risco pode ajudar a prever quem poderá desenvolver a doença - e a identificar bebés que devem ser acompanhados mais de perto.
Esse tipo de abordagem pode tornar-se uma ferramenta relevante à medida que avançamos para um rastreamento genómico mais amplo.
Ainda estamos no começo, mas já se observa uma mudança estrutural na forma de encarar a diabetes tipo 1. Por mais de cem anos, o tratamento significou transferir para o paciente a carga diária de repor, com insulina, aquilo que o corpo deixou de produzir.
Agora, a atenção começa a migrar para terapias que enfrentam o problema imune na origem, com a expectativa de travar a doença antes de ela se instalar por completo e de aproximar a possibilidade de um futuro sem insulina.
Richard Oram, Professor de Diabetes e Nefrologia, Universidade de Exeter, e Nicholas Thomas, Docente Clínico, Diabetes e Endocrinologia, Universidade de Exeter
Este artigo foi republicado a partir do The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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