A ciência encerrou o debate sobre ordem de nascimento e personalidade há cerca de uma década.
Uma análise robusta com mais de 20.000 adultos encontrou praticamente nenhum efeito sobre o temperamento - apenas uma vantagem discreta de QI para primogénitos, e mesmo assim quase impercetível.
Só que os registos de saúde contam outra história.
Um novo trabalho, com dados de mais de dez milhões de irmãos, indica que a posição entre os irmãos pode ter pouco a ver com quem você “vira” - e surpreendentemente muito a ver com quais doenças aparecem ao longo da vida.
Escaneando dez milhões de irmãos e a ordem de nascimento
Esta nova análise foi conduzida por Benjamin Kramer, pesquisador de biologia computacional da Universidade de Chicago, e seus colegas.
A proposta era acompanhar a ordem de nascimento em todo o panorama das doenças humanas - e não apenas em meia dúzia de condições que estudos anteriores tinham verificado de forma pontual.
Para isso, a equipa reuniu registos de seguros de saúde privados de 10,3 milhões de pessoas, vindas de 5,1 milhões de famílias com dois filhos.
Num dos modelos, foram emparelhados 1,6 milhão de pares de irmãos de lares diferentes, com controlo para sexo, idade dos pais e diferença de idade entre as crianças.
Num segundo desenho, a comparação foi feita entre irmãos dentro da mesma família. Esse formato elimina fatores partilhados do domicílio - estilo de parentalidade, renda, bairro - que poderiam distorcer os resultados.
Entre 418 doenças com casos suficientes para teste, 150 apresentaram associações reais com ordem de nascimento. Aproximadamente metade apareceu mais no filho mais velho; a outra parte, mais no segundo.
Onde os riscos de doença se dividem
Os primogénitos exibem taxas mais altas de autismo, síndrome de Tourette e episódios de psicose na infância.
Também têm maior ocorrência de acne, alergias, rinite alérgica e ansiedade. Chama a atenção a concentração tanto em condições ligadas ao desenvolvimento cerebral quanto em problemas do sistema imunitário.
Já os segundos filhos mostram um padrão diferente, mais carregado de problemas que tendem a surgir na vida adulta.
Abuso de substâncias, herpes-zóster, cálculos biliares, inflamação do estômago e enxaqueca aparecem mais frequentemente neste grupo.
Os efeitos individuais continuam pequenos. O excesso relativo de depressão entre primogénitos fica em cerca de 3,6%, e esse resultado permanece mesmo quando a comparação é feita diretamente entre irmãos criados na mesma casa.
Um estudo anterior com cerca de 20.000 pessoas tinha praticamente descartado a ordem de nascimento como fator de personalidade, encontrando apenas uma pequena vantagem de QI. Agora, o risco de doença parece ter estado “escondido” por baixo desse debate.
O fator da higiene
A explicação mais citada para o aumento de alergias em primogénitos é a hipótese da higiene. A ideia é que a exposição precoce a microrganismos pode “treinar” o sistema imunitário para tolerar irritantes comuns, em vez de reagir de forma exagerada.
Irmãos mais novos entram em contacto com esses microrganismos desde o início, porque recebem germes com regularidade do irmão mais velho.
Os novos dados são coerentes com isso. Primogénitos cujo irmão mais novo nasceu poucos anos depois têm menor probabilidade de desenvolver alergias ou rinite alérgica do que aqueles com um intervalo etário maior.
Uma revisão de 2022 sobre a hipótese identificou o mesmo padrão de diferença de idade noutras coortes.
E não são só as alergias: problemas de pele e doenças autoimunes exibem o mesmo excesso entre os mais velhos.
A presença - ou a falta - de contacto microbiano cedo na vida pode deixar marcas prolongadas no funcionamento do sistema imunitário.
Primeiras gestações “preparam” de outra forma
A própria gravidez pode ajudar a entender o padrão observado para autismo. Numa primeira gestação, o sistema imunitário da mãe encontra proteínas fetais pela primeira vez.
Essa novidade pode desencadear uma reação mais intensa. Parte dessa atividade aumentada pode alcançar o cérebro em desenvolvimento.
Esse mecanismo está bem documentado em experiências com animais. Ao induzir uma resposta imunitária numa roedora grávida, os descendentes passam a apresentar, de forma consistente, traços semelhantes aos do autismo.
Em humanos, é mais difícil demonstrar com precisão. Um estudo que investigou como a ativação do sistema imunitário materno afeta o desenvolvimento do cérebro fetal encontrou que muitos dos genes alterados já tinham sido associados ao autismo.
Ainda assim, essa explicação não abrange o resto da lista. Acne, inflamação do estômago e enxaqueca dependem de processos que não têm relação direta com a forma como o cérebro fetal se desenvolve.
Por que os rótulos podem variar
O resultado de autismo mais frequente em primogénitos merece atenção extra. Crianças diagnosticadas com autismo tendem a ir melhor em testes de QI do que crianças diagnosticadas com deficiência intelectual, mesmo quando o comportamento de base é quase o mesmo.
Primogénitos também pontuam, em média, um pouco mais nesses testes. Essa sobreposição pode influenciar o rótulo final.
Duas crianças com comportamentos comparáveis podem sair do consultório com diagnósticos diferentes - autismo para o primogénito, deficiência intelectual ou TDAH para o segundo filho. Pesquisadores chamam esse fenómeno de substituição diagnóstica.
Se a substituição diagnóstica explicar parte da diferença observada no autismo entre primogénitos, então uma fatia do “gap” pode refletir como os clínicos escolhem entre rótulos.
A biologia continua a ser uma hipótese - mas o processo de diagnóstico também.
O que isto pode mudar
Para médicos, os achados oferecem algo prático. A ordem de nascimento não costuma aparecer nas fichas padrão de anamnese, mas pode ajudar a orientar triagens e diagnósticos limítrofes.
O padrão de diferença de idade para alergias, por exemplo, é específico o suficiente para servir de base a ações.
A partir de agora, a ordem de nascimento passa a acompanhar diferenças reais de risco de doença em dezenas de condições, com padrões que nenhum estudo anterior tinha escala para detetar.
Com isso, o estudo entrega aos pesquisadores um conjunto concreto de mecanismos a perseguir - imunidade materna, exposição precoce a microrganismos e a interação entre ambos.
Depois de ter sido um assunto de conversa descartado quando a pesquisa sobre personalidade não encontrou muito, a posição entre irmãos agora parece atuar como uma força biológica que atravessa uma faixa de problemas médicos mais ampla do que qualquer pessoa tinha medido.
A questão é até que ponto esses mecanismos se aprofundam.
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