A depressão costuma ser avaliada por meio de um escore de gravidade - uma escala padronizada que indica ao clínico quão intensa está a depressão de uma pessoa.
Esse número orienta escolhas na pesquisa em psiquiatria, como quem recebe qual tratamento, quem se encaixa num ensaio clínico e quais pacientes tendem a responder a um medicamento. Em geral, a duração da depressão não entra nessa conta.
Só que exames de imagem cerebral descritos em um estudo recente sugerem que falta uma peça nesse retrato baseado apenas na gravidade. O tempo durante o qual alguém permanece deprimido pode carregar informações que o escore de gravidade, sozinho, não consegue captar.
Dois sistemas em desacordo
A Dra. Tamires Zanão conduziu o trabalho como pesquisadora de pós-doutorado na Universidade de Oxford (Oxford), em parceria com cientistas da Universidade de São Paulo (USP), no Brasil. Em conjunto, o grupo analisou exames cerebrais de 46 adultos com diagnóstico de depressão maior.
Duas redes amplas do cérebro ficaram no centro da análise. A Rede Executiva Central é responsável por planejamento e foco, direcionando a atenção para o mundo externo.
Na direção oposta atua a Rede de Modo Padrão, que se ativa durante memória, autorreflexão e devaneios mentais.
Em um cérebro saudável, esses sistemas se alternam de forma fluida, com uma terceira rede ajudando a transferir a atenção de um para o outro.
Na depressão, esse ritmo se desorganiza. O sistema voltado para dentro fica “alto” demais, o voltado para fora, “baixo” demais, e os pensamentos entram em ciclos repetitivos.
Duração da depressão e padrões no cérebro
A virada apareceu quando a equipe de Zanão separou os pacientes pela duração da depressão. Quem estava no episódio atual por mais de 24 meses foi classificado como crônico. Os demais entraram no grupo de duração mais curta.
Entre os participantes com depressão de menor duração, a ligação entre a rede executiva e um “hub” do sistema voltado para dentro enfraquecia à medida que os sintomas pioravam.
Já no grupo crônico ocorreu o inverso. Sintomas mais intensos vieram acompanhados de conexões mais fortes entre essas mesmas regiões.
Assim, dois pacientes com escores de depressão quase idênticos podiam apresentar padrões cerebrais em espelho, dependendo de há quanto tempo estavam doentes.
Uma meta-análise ampla de exames cerebrais já havia indicado uma desorganização geral entre essas redes. A inversão desse sentido, porém, foi uma novidade.
Ponte no cérebro
A conexão específica envolvia uma pequena região chamada precúneo, situada em profundidade, perto da parte posterior do cérebro. Oficialmente, ela faz parte da rede voltada para dentro.
Mapeamentos mais recentes, no entanto, apontam o precúneo como um entroncamento que se comunica com vários sistemas ao mesmo tempo.
Memória, autoimagem, mudança de foco atencional - o precúneo costura essas funções. Essa posição pode ajudar a explicar por que as redes voltadas para dentro e para fora se embolam na depressão.
Quando o diálogo do precúneo com o córtex executivo se desloca, os pesquisadores entendem que fica mais difícil sair do ciclo de pensamentos internos repetitivos.
A depressão que se prolonga parece empurrar esse deslocamento em uma direção; episódios mais curtos empurram na direção oposta. O motivo exato ainda não está claro, embora a equipe suspeite que o cérebro siga se reajustando conforme a doença persiste.
Pistas na substância cinzenta
A gravidade dos sintomas também apareceu como sinal estrutural. Os escores de sintomas se associaram a maior volume de substância cinzenta em duas áreas: o córtex cingulado anterior e o córtex pré-frontal dorsolateral direito.
As duas regiões já haviam sido destacadas em estudos sobre depressão. O córtex cingulado anterior integra emoção e pensamento. A região vizinha, o córtex pré-frontal dorsolateral direito, faz parte da rede executiva, e trabalhos anteriores relacionaram uma hiperatividade no lado direito a emoções negativas.
Há décadas, os relatos sobre a depressão reduzir ou aumentar o tamanho dessas regiões são conflitantes. Uma parte dessa confusão tem relação com o uso de medicação. Remédios podem alterar volumes cerebrais por si só, dificultando separar o que vem da doença e o que vem do tratamento.
Sem medicação
No estudo atual, todos os pacientes haviam interrompido antidepressivos antes do exame. Todos passaram por uma janela sem fármacos longa o suficiente para eliminar a medicação do organismo. Esse detalhe dá uma nitidez incomum aos achados.
A maioria dos estudos de volume cerebral em depressão envolve pessoas em tratamento, em recuperação ou em algum ponto intermediário.
Esse cenário é nebuloso. Retirar os medicamentos antes da imagem permitiu à equipe observar o que a doença, isoladamente, pode estar fazendo.
A amostra continuou pequena - 46 pessoas, em sua maioria mulheres, recrutadas a partir de um ensaio hospitalar no Brasil. Isso limita até onde as conclusões podem ser generalizadas. Ainda assim, para a questão de mudanças cerebrais sem a interferência de antidepressivos, a leitura ficou mais direta.
Duração da depressão e tratamento
Pesquisadores que investigam o efeito da depressão no cérebro raramente separam pacientes pela duração da doença. A gravidade costuma receber quase todo o peso, enquanto a duração fica em segundo plano. Até agora.
Em níveis de sintomas semelhantes, pacientes crônicos e não crônicos exibiram conexões em espelho. Isso sugere que tratamentos testados em grupos mistos podem estar atingindo, ao mesmo tempo, duas condições diferentes.
Uma terapia que ajuste a atividade cerebral na direção “certa” para alguém com depressão recente pode empurrar na direção oposta em quem convive com a doença há anos. A implicação alcança a forma como a psiquiatria testa e distribui suas ferramentas.
A equipe trata o resultado como um ponto de partida, não como um manual clínico. Amostras maiores e acompanhamentos mais longos deverão indicar se a duração merece estar ao lado da gravidade como dimensão central da depressão.
De todo modo, a marca da doença no cérebro parece menos um sinal único e mais um padrão que se transforma com o tempo. A configuração das conexões na depressão de longa duração aparenta seguir uma regra diferente da configuração em um episódio recente.
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