A maioria das pessoas tenta fugir do estresse. Em geral, os conselhos sobre bem-estar repetem que quanto menos estresse, mais felicidade e mais saúde.
Um estudo recente, porém, indica que a questão pode ser mais complexa. Pesquisadores da Universidade da Califórnia, em Irvine, e da Penn State analisaram pessoas que passaram dias inteiros praticamente sem nenhum estressor cotidiano.
Os resultados, publicados na revista científica Emoção, apontaram que esses participantes tendiam a se sentir mais felizes e mais saudáveis - mas tiveram desempenho inferior em testes cognitivos.
Com isso, as conclusões colocam em dúvida a ideia de que uma vida totalmente livre de estresse é, necessariamente, a melhor opção.
O estresse tem dois lados
Há anos, cientistas associam o estresse crónico a problemas graves de saúde. Períodos prolongados de pressão podem aumentar o risco de doenças cardíacas, ansiedade, depressão e dificuldades para dormir.
Em fases difíceis, como durante a pandemia de COVID-19, os níveis de estresse nos Estados Unidos aumentaram de forma acentuada.
Ao mesmo tempo, psicólogos também vêm observando que pequenos estressores do dia a dia podem, em certos casos, ajudar na adaptação. Desafios leves podem treinar a mente para lidar melhor com dificuldades futuras.
David M. Almeida, coautor do estudo e Professor Distinto de Desenvolvimento Humano e Estudos da Família na Penn State, dedica-se há décadas a investigar o estresse diário.
“Eu comecei esse trabalho querendo testar a hipótese de que a exposição a estressores era a chave para entender a saúde, mas não foi isso que encontrei”, disse Almeida.
“Ao invés disso, a chave para entender a saúde é como reagimos aos estressores.”
Acompanhando o estresse na vida diária
A equipa de pesquisa trabalhou com dados do levantamento Midlife in the United States, conhecido pela sigla MIDUS. Os participantes responderam a entrevistas telefónicas diárias ao longo de oito noites consecutivas.
Os pesquisadores perguntavam se, ao longo do dia, haviam ocorrido discussões, problemas no trabalho ou outros acontecimentos estressantes.
Entre 2.711 adultos com idades de 25 a 75 anos, cerca de 10% afirmaram não ter enfrentado nenhum estressor durante todo o período de oito dias.
Um olhar mais atento sobre estressores do dia a dia
A maior parte das pessoas relatou pelo menos um momento estressante na semana. Ainda assim, aproximadamente 264 indivíduos disseram não ter vivenciado nenhum.
“O meu trabalho foca nos estressores diários, que são os pequenos eventos mundanos que geram inconveniências na nossa vida”, afirmou Almeida.
“Embora não mudem a vida, eles impactam o nosso estado mental e emocional naquele momento.”
“Um acidente de carro grave pode ser um grande acontecimento de vida, mas ficar preso no trânsito seria um estressor diário. Eu me interesso em entender a frequência pura desses estressores diários e como eles afetam a nossa saúde.”
Vidas sem estresse pareciam mais silenciosas
Quem relatou zero estressores apresentou alguns traços em comum. Em média, eram pessoas mais velhas, com maior probabilidade de serem homens e com menor probabilidade de estarem empregadas ou casadas.
Os pesquisadores também identificaram diferenças no uso do tempo. Esse grupo trabalhava menos, fazia menos voluntariado e tinha menos interações com redes de apoio emocional. Além disso, assistia mais televisão.
O quotidiano parecia mais calmo, mas também menos socialmente ativo. “Nós fizemos uma série de análises examinando participantes que nunca relataram vivenciar estressores”, disse Almeida.
“Encontrámos que, em média, essas pessoas trabalhavam menos horas e tinham menos estresse familiar, mas eram menos propensas a relatar eventos positivos nas suas vidas. Elas também eram menos propensas a se engajar em sistemas de apoio social e emocional com outras pessoas.”
Menos estresse melhorou o humor
O grupo sem estresse descreveu mais emoções positivas, como tranquilidade, satisfação e felicidade. Também relatou níveis mais baixos de raiva, tristeza e frustração.
Quando os pesquisadores avaliaram a satisfação geral com a vida, os participantes sem estressores alcançaram pontuações mais altas do que o restante da amostra.
A saúde física também pareceu um pouco melhor. Mesmo após considerar fatores como idade e situação de emprego, eles relataram menos doenças crónicas no total.
Só que outro resultado tornou o quadro menos simples.
Pior desempenho cerebral
Os participantes realizaram testes que avaliavam memória, raciocínio, velocidade de processamento e flexibilidade mental.
De forma consistente, o grupo que não relatou estressores obteve resultados mais baixos.
Os pesquisadores compararam essa diferença a um declínio cognitivo equivalente ao que normalmente se associa ao envelhecimento de cerca de oito anos adicionais.
Atividades ligadas a memória, pensamento rápido e organização mental pareceram mais frágeis entre aqueles que relataram semanas completamente livres de estresse.
Exercício para o cérebro
Para os autores, estressores do dia a dia podem funcionar como sinais de envolvimento com o mundo.
Lidar com problemas no trabalho, administrar conflitos familiares, resolver questões domésticas e responder a situações inesperadas exige esforço mental.
Esses episódios forçam o cérebro a se ajustar, organizar informação e tomar decisões. Sem esse tipo de vivência, a mente pode receber menos estímulos.
“Gerir o estresse pode ser bom para o cérebro e para a cognição, assim como o exercício é para o corpo. Com um regime de exercícios, o corpo fica forte. Da mesma forma, ao gerir o nosso estresse e desenvolver respostas produtivas ao estresse, a nossa saúde cognitiva e mental pode ficar mais forte”, explicou Almeida.
“Nas análises mencionadas acima, encontramos que os indivíduos que não vivenciaram estressores também tiveram pior desempenho em testes de funcionamento cognitivo, o que, para nós, indica que há alguns benefícios em vivenciar estresse.”
O estresse muitas vezes vem da conexão
Com frequência, o estresse diário nasce de relacionamentos, responsabilidades e atividades que têm importância para nós.
Discussões ocorrem porque existe cuidado. A pressão no trabalho surge porque há metas e expectativas. Até frustrações pequenas - como consertar um cano com vazamento ou resolver problemas no telemóvel - exigem aprendizagem e adaptação.
“O estresse diário muitas vezes funciona como um ímã social”, disse Almeida. “Quando estamos vivenciando um estressor, naturalmente queremos nos conectar com alguém e buscar apoio.”
“O estresse diário também oferece oportunidades para novas experiências e resolução de problemas. Mesmo coisas pequenas, como reparar um cano com vazamento ou consertar problemas no telemóvel, engajam o nosso cérebro e muitas vezes nos obrigam a buscar ajuda de outras pessoas.”
Calma demais tem custos
O estudo não defende que as pessoas procurem estresse constante. Estresse severo e prolongado continua a prejudicar a saúde física e a saúde mental.
Em vez disso, os dados apontam para a moderação.
Uma vida sem atritos pode aumentar o conforto emocional, mas deixar a mente menos ativa.
Já uma rotina com desafios administráveis pode reforçar habilidades cognitivas, ainda que traga algum desgaste emocional ocasional.
Gerir o estresse funciona melhor
Almeida recomenda que as pessoas direcionem a atenção ao estressor e busquem uma forma de administrar o problema.
“Gerir o problema de forma eficaz vai ajudar você a desenvolver um senso de controlo sobre a situação e dar motivação para lidar com ela de maneira eficaz,”
Ele também alerta contra a tentativa de eliminar o estresse por completo.
“Eu alertaria as pessoas contra fugir dos seus estressores. O estresse pode ser horrível no momento, mas certos estressores diários são uma parte natural da vida.”
“A melhor abordagem é desenvolver estratégias para resolver esses estressores para que, na próxima vez que aconteçam, não sejam tão perturbadores.”
O estudo sugere que a mente humana pode precisar de um certo nível de desafio para permanecer ativa e afiada. A calma total pode parecer atraente, mas a ausência completa de movimento pode ter um preço.
“Estresse nem sempre é algo ruim. Os tipos certos de desafios podem nos motivar, ajudar a crescer, favorecer relacionamentos maravilhosos e impulsionar o nosso trabalho”, concluiu Almeida.
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