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COVID-19 não mudou a paternidade de forma duradoura, mostra estudo em Cebu

Homem segurando criança e notebook na porta de uma sala de estar com brinquedos e escritório.

Durante os confinamentos da COVID-19, muitos pais passaram, de repente, a ter mais tempo dentro de casa - e, por um período, pareceu que a vida em família tinha ganhado um “reinício”. As casas viraram escritório, sala de aula e creche ao mesmo tempo.

Com todo mundo mais recolhido e as rotinas viradas do avesso, não foram poucos os pais que conviveram com os filhos como nunca tinham conseguido antes.

Isso chamou atenção. Circularam relatos de pais preparando refeições, dando apoio nas tarefas escolares e assumindo a hora de dormir.

A partir daí, surgiu uma expectativa otimista: talvez essa experiência ficasse como legado. Talvez a paternidade fosse mudar de maneira permanente - mas, com o tempo, essa esperança foi perdendo força.

O que mudou para os pais - e o que não mudou

Para entender se os novos hábitos trazidos pela pandemia se sustentaram, pesquisadores acompanharam pais ao longo de muitos anos. Em vez de se apoiarem apenas em questionários rápidos ou recortes de curto prazo, eles observaram o mesmo grupo por mais de uma década, registrando como o papel dos homens dentro de casa se transformou antes e depois da COVID-19.

O estudo foi liderado por Lee Gettler, antropólogo e especialista em paternidade da University of Notre Dame. A equipa analisou 15 anos de informações, com foco em pais que vivem em Cebu, uma grande área metropolitana nas Filipinas.

O contexto foi decisivo: o país esteve entre os que aplicaram alguns dos confinamentos mais longos e rigorosos do mundo. Isso tornou o cenário um bom “teste” para avaliar se a experiência de ficar em casa poderia remodelar a parentalidade.

“Descobrimos que a COVID - e o tempo que os pais passaram em casa com os filhos naquele período - não mudou a paternidade de nenhuma forma duradoura”, disse Gettler.

“Assim que a vida volta ao normal, vemos que os pais continuam a fazer a mesma coisa que faziam antes da COVID.”

O mito de uma mudança duradoura

No auge dos confinamentos, parecia que havia uma viragem importante em curso. Muita gente acreditou que os pais estavam a assumir novas responsabilidades e que isso transformaria a dinâmica familiar no longo prazo.

“Havia por aí a ideia de que uma percentagem significativa de pais estava a passar mais tempo com os filhos durante os períodos de confinamento, mesmo que continuassem a trabalhar, e que a dinâmica da COVID levaria a esse efeito de longo prazo sobre o que e o quanto os pais faziam dentro das suas famílias”, disse Gettler. “E nós simplesmente não vimos essa mudança prevalecer.”

A pesquisa colocou lado a lado comportamentos de cuidado anteriores à pandemia - com dados de 2009 e 2014 - e comportamentos após a pandemia, em 2022 e 2023. Foram analisados o cuidado direto com crianças pequenas, o tempo de brincadeira e a ajuda em atividades de aprendizagem.

No conjunto desses aspectos, a maioria dos pais voltou ao padrão de sempre quando os confinamentos terminaram.

Um grupo que, de fato, mudou

Houve, porém, uma exceção clara. Pais que perderam o emprego ou tiveram redução de trabalho durante a pandemia tornaram-se mais envolvidos na educação dos filhos.

Eles passaram mais tempo a apoiar os estudos e as tarefas escolares - e esse aumento não desapareceu depois que as restrições foram suspensas.

“Vemos essa ligação entre a situação de emprego e a capacidade dos pais de passarem mais tempo a ajudar as crianças com o trabalho escolar e a lição de casa”, disse Gettler.

“Mas esse é o único indício de que as condições em torno da COVID podem ter contribuído para algum tipo de mudança no que os pais fazem em casa.”

O resultado aponta para algo simples, mas importante: tempo faz diferença. Quando as exigências do trabalho diminuem - mesmo em circunstâncias difíceis - os pais tendem a participar mais da vida doméstica.

O trabalho ainda molda a vida familiar

O estudo reforça um padrão observado em muitos países: a situação profissional do pai costuma determinar o quanto ele consegue envolver-se em casa.

Jornadas longas, trabalho instável ou pressão financeira podem limitar o tempo e a energia disponíveis para cuidar.

“Acho que o que faltou em muitos desses relatos iniciais foi uma perspetiva mais ampla sobre quais são as realidades para famílias e pais nos Estados Unidos e no mundo após a pandemia, especialmente quando pensamos nos empregos comuns para homens, na precariedade no local de trabalho e na desigualdade económica”, disse Gettler.

Isso ajuda a entender por que o entusiasmo do começo não se manteve. Os confinamentos criaram condições fora do comum; quando essas condições acabaram, grande parte das mudanças também se dissipou.

O que poderia fazer diferença

A pesquisa sugere um problema mais profundo: se a sociedade quer que os pais se mantenham presentes, precisa tornar isso viável no dia a dia - e não apenas durante uma crise.

Horários de trabalho flexíveis, licença-paternidade remunerada e opções de trabalho remoto podem abrir espaço para que os pais participem mais da rotina familiar. Sem esse tipo de suporte, os padrões antigos tendem a reaparecer.

“Ainda restam questões sobre como podemos continuar a incentivar pais em famílias com dois progenitores a fazerem a sua parte, serem parceiros de apoio ou equilibrarem as responsabilidades do que é necessário para tocar uma casa e cuidar de crianças pequenas”, observou Gettler.

“A COVID expôs ou habituou mais pais a como isso pode ser, mas agora precisamos capacitá-los a continuar esse comportamento.”

O panorama mais amplo

A paternidade vem a mudar nas últimas décadas. Em muitos lugares, os pais hoje participam mais do que no passado.

O estudo em Cebu reflete essa tendência, ao mostrar um crescimento contínuo da participação paterna mesmo antes da pandemia.

Ainda assim, transformações não acontecem do dia para a noite. Elas avançam devagar e dependem de sistemas maiores - como o mercado de trabalho, políticas públicas e expectativas culturais.

A pandemia ofereceu um vislumbre de como poderia ser uma paternidade mais presente. Mas não fixou essa mudança. Mostrou o que é possível - e também o que impede que isso se torne regra.

O estudo completo foi publicado na revista PLOS One.

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